Skip to content Skip to sidebar Skip to footer

Aprender a olhar como Jesus: a compaixão que transforma a missão

Frei Luciano Audisio reflete sobre o Evangelho dominical mostrando como a compaixão de Jesus nasce de um olhar capaz de descobrir as feridas humanas e a ação silenciosa de Deus. Um convite a evangelizar a partir da gratuidade, da misericórdia e do amor.
10.-a-profundidade-do-olhar

Em seu comentário ao Evangelho deste domingo, frei Luciano Audisio, OAR, convida-nos a entrar no olhar de Jesus sobre as multidões. Através de uma profunda reflexão bíblica e espiritual, ele mostra como a compaixão de Cristo nasce de um olhar que ama, reconhece as feridas humanas e descobre a ação silenciosa de Deus em cada pessoa. Um convite a evangelizar não a partir da estratégia, mas da gratuidade, da misericórdia e da capacidade de ver como Jesus vê.

O olhar que nasce do amor

O evangelho deste domingo permite-nos entrar no próprio coração de Jesus. Tudo começa com uma palavra simples, mas decisiva: «vendo» (Ἰδών). Jesus olha para as multidões. Mas não se trata de um olhar superficial nem distraído. É o olhar de quem ama. Somente o amor é capaz de ver verdadeiramente. Somente o amor pode atravessar as aparências e alcançar aquilo que acontece no mais profundo do coração humano.

O evangelista diz-nos que Jesus vê as multidões e comove-se profundamente. Utiliza um verbo muito forte: «comover-se nas entranhas» (σπλαγχνίζομαι). Jesus não observa o sofrimento de longe. Não permanece indiferente. Deixa-se afetar por ele. A dor das pessoas entra em seu próprio coração.

E o que é que Jesus vê? Vê homens e mulheres cansados e abatidos. No entanto, as palavras originais são ainda mais intensas. Vê pessoas «dilaceradas» (ἐσκυλμένοι), feridas pela vida, e «prostradas» ou «dispersas» (ἐρriμμένοι), como quem perdeu um ponto de referência e já não sabe para onde se dirigir.

Talvez aqui encontremos uma das experiências mais características do nosso tempo. Fala-se muito do cansaço físico, do estresse ou da ansiedade. Mas existe também um cansaço mais profundo: o cansaço do coração. É o esgotamento que aparece quando se vive sem um lugar onde descansar interiormente, quando falta uma relação de confiança capaz de sustentar a vida.

O coração humano foi criado para o amor. Foi criado para descansar em uma relação onde possa ser plenamente ele mesmo, sem máscaras nem defesas. Quando essa experiência falta, a vida converte-se em uma luta permanente para conquistar um lugar, para demonstrar nosso valor ou para proteger nossas seguranças. E essa luta acaba por nos esgotar.

Jesus reconhece esta realidade e a descreve com uma imagem tirada das Escrituras: «como ovelhas que não têm pastor» (ὡσεὶ πρόβατα μὴ ἔχοντα ποιμένα). Esta expressão aparece em momentos decisivos da história de Israel. Moisés utiliza-a ao final de sua vida quando pede a Deus um sucessor para que o povo não fique abandonado. Esse sucessor será Josué, «o Senhor salva» (יְהוֹשֻׁעַ). Também aparece nos profetas para descrever o drama do exílio, quando o povo se encontra disperso, sem guia e sem esperança.

O evangelista quer que compreendamos algo muito importante: Jesus é o novo Josué. Ele vem para reunir os dispersos, para conduzir novamente o povo e para inaugurar o grande regresso do exílio espiritual. Ali onde o ser humano experimenta desorientação, solidão ou perda de sentido, Jesus apresenta-se como o pastor que reúne, guia e devolve a esperança.

A missão começa quando aprendemos a ver

Mas o evangelho dá um passo além. Depois de contemplar a multidão, Jesus chama os discípulos. Antes de enviá-los, faz com que participem de seu próprio olhar. Isto é muito importante. A missão não nasce de uma estratégia nem de um projeto humano. Nasce de aprender a olhar como Cristo olha.

Por isso Jesus afirma: «A messe é grande e os operários são poucos» (ὁ μὲν θερισμὸς πολύς, οἱ δὲ ἐργάται ὀλίγοι). Às vezes interpretamos estas palavras como um convite a trabalhar mais. No entanto, o texto contém um ensinamento muito mais profundo. Jesus não diz que é preciso produzir a colheita. A colheita já existe. O Pai já esteve trabalhando. A semente já cresceu.

O evangelizador não é chamado a salvar o mundo. O Salvador é Deus. Tampouco é chamado a fabricar a fé nos outros. É chamado a descobrir a ação de Deus que já está presente em cada coração.

Evangelizar significa reconhecer que o Senhor sempre nos precede. Significa descobrir que, mesmo ali onde parece que nada acontece, Deus continua trabalhando silenciosamente. A missão começa quando aprendemos a contemplar essa obra escondida.

Por isso Jesus chama os Doze e os envia. E é significativo que lhes conceda autoridade para expulsar os espíritos impuros. Muitas vezes pensamos imediatamente nos demônios. No entanto, uma das formas mais sutis da ação do mal consiste em deformar o rosto de Deus em nosso coração.

Cada vez que imaginamos um Deus distante, indiferente, castigador ou incapaz de nos amar, aparece uma imagem falsa que nos afasta d’Ele. A missão dos discípulos consiste precisamente em ajudar as pessoas a descobrir o verdadeiro rosto do Pai revelado por Jesus: um Deus próximo, misericordioso e cheio de compaixão.

De graça recebestes, de graça dai

Finalmente, o evangelho conclui com uma frase que resume toda a lógica cristã: «De graça recebestes, de graça dai» (δωρεὰν ἐλάβετε, δωρεὰν δότε). Tudo em nossa vida é dom. A fé é um dom. A misericórdia é um dom. O amor de Deus é um dom. Ninguém pode comprá-lo nem merecê-lo. E precisamente porque recebemos tudo gratuitamente, somos chamados a dar gratuitamente. O cristão não vive acumulando dons para si mesmo, mas tornando-se ele mesmo um dom para os outros.

Talvez este seja o convite que hoje o Senhor nos dirige: aprender a olhar com seus olhos, deixar-nos comover pelo que comove seu coração, descobrir a obra silenciosa de Deus nas pessoas e tornar-nos, com simplicidade e gratuidade, instrumentos de seu amor.

Porque o mundo não precisa apenas de mais palavras sobre Deus. Precisa de homens e mulheres que, tendo experimentado a gratuidade de seu amor, sejam capazes de refleti-la com sua própria vida.

Compartilhar:

Assine nossa newsletter