O comentário ao Evangelho da solenidade da Santíssima Trindade, escrito por frei Luciano Audisio, OAR, convida-nos a descobrir que o mistério central da fé cristã não é uma teoria abstrata nem um problema teológico, mas uma história de amor. A partir do diálogo entre Jesus e Nicodemos, esta reflexão aprofunda a misericórdia de Deus, a dignidade da pessoa humana e o significado profundo da salvação como experiência de um Deus que nos ama, nos conserva e nos guarda para sempre.
A Trindade: o mistério de um Deus que ama
Celebramos hoje o mistério mais grandioso de nossa fé e, talvez, o mais difícil de abraçar: a Santíssima Trindade. Muitos o percebem como um enigma destinado a teólogos ou filósofos, e até nossos irmãos do judaísmo e do islamismo encontram nele um obstáculo insuperável, pois parece contradizer o monoteísmo. No entanto, o evangelho deste domingo nos revela algo surpreendente: o mistério da Trindade não é um problema especulativo. É, antes de tudo, uma história de amor.
“Porque Deus amou tanto o mundo que entregou o seu Filho Unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.” (Jo 3,16)
Estas palavras nascem de um diálogo noturno. Jesus fala com Nicodemos de noite, porque o que se diz toca as realidades mais profundas e pessoais da existência. E nesse diálogo íntimo, Jesus revela quem é Deus: não um juiz que espreita, mas um Pai que ama. Um amor que não se dirige a um mundo ideal ou perfeito, mas ao mundo tal como é, com seu pecado, sua violência, seu egoísmo. É precisamente esse mundo, o nosso, que Deus amou.
Mas quem é este Deus que ama assim? A liturgia de hoje convida-nos a olhar a primeira leitura, esse texto do Êxodo onde Deus passa diante de Moisés e pronuncia seu nome. Moisés havia pedido para compreender o Deus que o havia enviado para liberar Israel, e Deus lhe responde revelando-se. O tetragrama sagrado, as quatro letras hebraicas יהוה que os judeus não pronunciam, encerra uma raiz que evoca a fidelidade, o ser, o estar sempre. Não é um nome que se esgota em uma só palavra: desdobra-se na história, conjuga-se e amplia-se com o tempo.
E o que segue ao nome é revelador. Deus apresenta-se como misericordioso, piedoso, cheio de graça e de fidelidade. Quatro palavras que são como círculos concêntricos, cada um mais profundo que o anterior. A primeira, graça, fala de um Deus que se aproxima, que se expõe, como um rei que concede graça a quem está condenado à morte. A segunda, compaixão, vem do hebraico reḥem, que alude às entranhas maternas: é uma misericórdia tão profunda que faz tremer as entranhas de Deus por amor a seu filho. As outras duas, gratuidade e fidelidade, dizem-nos que Deus age sem esperar nada em troca e que não se cansa de estar presente em seu compromisso.
Quando chegamos ao evangelho com tudo isso na memória, algo nos comove. Cristo é a síntese viva de todas essas palavras. Em sua carne convergem todos os termos que o Antigo Testamento havia desdobrado para revelar-nos quem é Deus. A Trindade não é uma ideia abstrata: é a história de um Deus que em Jesus se faz corpo, que sofre, que ama com entranhas concretas.
Salvar é guardar para sempre o que Deus ama
E então aparece uma palavra que muitos escutamos com certo temor: salvar. O evangelho diz que Deus não enviou seu Filho para julgar o mundo, mas para salvá-lo. Mas o que significa salvar?
Pode nos ajudar uma imagem cotidiana: quando trabalhamos em um computador e não salvamos o arquivo, o perdemos. Em inglês se diz to save: guardar, conservar, resistir à perda. Isso é exatamente o que Deus faz conosco.
Como se nos dissesse: se você quiser, eu conservo isto para sempre. Guardo este encontro, esta vida, esta sua experiência. Salvo-a porque é bela, porque desde o princípio da criação Deus vê tudo o que faz e o declara bom.
A criação não é um evento que ficou para trás: continua agora mesmo. A história é a criação que segue adiante. E nela, Deus se maravilha continuamente com a beleza de suas criaturas, de como respondemos ou não respondemos, e ainda assim é capaz de acolher-nos e dizer-nos: se você desejar, eu guardo este encontro para sempre.
Isso é a fé: dizer a Deus que sim, que também para nós foi belo encontrar-nos com Ele, e que queremos que esse encontro perdure, que brilhe e se converta em bênção para outros.
E aquele que não crê, diz o evangelho, “já está condenado”. Não é uma ameaça, mas sim uma descrição da realidade. Nossa vida flui e se perde continuamente; existe uma precariedade extraordinária em tudo o que vivemos. O Qohelet sabia bem disso: tudo corre e tudo acaba se perdendo, tudo é vaidade das vaidades.
Mas precisamente nesta vida que parece escapar entre os dedos, existe a possibilidade de dizer a Deus: salve-nos, conserve-nos. Este é o ato de fé. E com esse sim, já foi salvo, porque a fé é dizer a Deus que queremos que este encontro vivido na terra, durante os anos frágeis e belos de nossa vida, seja algo que perdure para sempre.
“Aquele que nele crê não será julgado.” (Jo 3,18)
A Trindade: o Deus misericordioso que não deixa perder nada de bom
Este é o mistério extraordinário que celebramos hoje: a Trindade não é uma doutrina fria. É o nome de um Deus misericordioso, compassivo, gratuito e fiel, que em Jesus nos amou até o fim, e que no Espírito continua agindo no coração do mundo para guardá-lo, para salvá-lo, para que nada do que é bom e belo se perca para sempre.
Que esta celebração seja, para cada um de nós, um momento em que digamos a esse Deus que sim, que o queremos, que este encontro com Ele é algo belo que vale a pena guardar.
