O comentário ao Evangelho da solenidade de Corpus Christi, escrito por frei Luciano Audisio, OAR, convida-nos a contemplar a Eucaristia a partir do seu núcleo mais profundo: não como um simples símbolo nem como uma recordação do passado, mas como a presença viva de Cristo que se entrega como alimento. A partir do discurso do Pão da Vida no Evangelho de São João, esta reflexão ajuda-nos a descobrir como Deus se faz próximo na nossa fragilidade e nos incorpora à sua própria vida para nos transformar de dentro para fora.
“Eu sou o pão vivo”: Deus se faz alimento para o mundo
Hoje celebramos o Corpo e o Sangue de Cristo, e talvez convenha dizê-lo desde o começo com toda a simplicidade: não celebramos um símbolo, mas uma entrega. Não celebramos uma recordação, mas uma presença. Não celebramos algo que Deus nos dá, mas algo muito mais desconcertante: Deus que se dá a si mesmo como alimento.
Por isso, o Evangelho de hoje começa com uma frase que muda tudo: “Eu sou o pão vivo” (ἐγώ εἰμι ὁ ἄρτος ὁ ζῶν). Não é uma metáfora piedosa. É uma afirmação absoluta. E essas duas palavras, “Eu sou” (ἐγώ εἰμι), levam-nos ao lugar mais sagrado da linguagem bíblica: o modo como Deus se revela.
Na tradição de Israel, Deus é o Vivente (ὁ ζῶν). Não um ídolo, não uma ideia, não uma força impessoal, mas Aquele que vive e dá vida. E, no entanto, nos lábios de Jesus, essa confissão une-se a algo impossível de imaginar: o pão. “Eu sou o pão vivo”.
Aqui ocorre uma inversão total. Deus já não é apenas Aquele que alimenta de longe. Deus apresenta-se como alimento. Deus oferece-se para ser recebido, comido, incorporado. E isto toca o núcleo mais profundo da nossa existência.
Porque comer não é um ato secundário. Comer é uma necessidade vital. Comer é reconhecer que a vida não a produzimos nós, mas a recebemos. Comer é estar sempre no limite entre a vida e a morte, sustentando-nos graças a algo que vem de fora. E precisamente aí, nesse gesto tão elementar, Deus decide entrar.
Por isso, o Evangelho não fala de uma ideia, mas de uma carne: “O pão que eu darei é a minha carne pela vida do mundo” (ὁ ἄρτος δὲ ὃν ἐγὼ δώσω ἡ σάρξ μού ἐστιν ὑπὲρ τῆς τοῦ κόσμου ζωῆς). A palavra carne, σάρξ, não é decorativa. Nomeia a nossa fragilidade, a nossa vulnerabilidade, a nossa condição exposta. Deus não se envergonha dessa fragilidade. Pelo contrário: assume-a. E ao assumi-la, transforma-a em lugar de encontro.
Aqui está o ponto de escândalo. Porque a pergunta é inevitável: como podemos comer a carne e beber o sangue de um homem? Já os contemporâneos de Jesus o ouviram assim, com desconforto, com rejeição, até com ruptura. Porque entrar nesta lógica significa algo decisivo: deixar de pensar a fé como adesão a uma ideia e compreendê-la como participação numa vida. E essa vida tem nome: Jesus.
A Eucaristia nos incorpora à vida de Cristo
Entrar na Eucaristia não é simplesmente “receber algo sagrado”. É entrar na história de outro. E, no entanto, esta é a paradoxo mais luminosa do Evangelho: a história de outro, a de Cristo, revela-se como a nossa própria história mais profunda. O que parece exterior torna-se íntimo. O que parece alheio converte-se em identidade. O que parecia distante descobre-se como o mais próprio.
Por isso, a Eucaristia não é um momento isolado dentro da vida cristã. É a incorporação a um movimento vivo. Como dizia Bento XVI, a ressurreição não é um acontecimento fechado no passado, mas um corpo que atravessa toda a história. Um corpo que nasce na manhã da Páscoa e que se abre até à sua plenitude na Parusia.
E nós entramos nesse corpo. Não como espectadores, mas como participantes. Não de fora, mas de dentro. A Eucaristia é precisamente isso: a forma como a nossa vida fica enxertada nesse movimento de Cristo vivo que atravessa a história e a conduz à sua plenitude.
Por isso, quando comemos este pão, não só recordamos Jesus. Somos incorporados a Ele. E ao sermos incorporados, começamos a viver de outra maneira. Porque quem recebe este pão não só recebe uma graça: recebe uma forma de vida. E essa forma de vida tem um nome muito concreto no Evangelho: o serviço.
Aqui se revela a revolução cristã. Não se trata de dominar, mas de servir. Não se trata de afirmar-se, mas de entregar-se. Não se trata de possuir, mas de dar-se.
Deus se nos dá como vida
E tudo isto começa num gesto tão humilde como comer. O mais humano — comer, necessitar, receber — converte-se no lugar onde Deus nos introduz no mais divino: a sua própria vida. E essa vida não é outra coisa senão amor que se entrega.
Assim, na fragilidade da nossa carne, na necessidade do nosso corpo, na pobreza da nossa condição, Deus faz-se presente. E ali onde parecia haver limite, aparece comunhão. Ali onde parecia haver fim, aparece vida. Ali onde parecia haver morte, aparece eternidade.
Porque este é o mistério que hoje celebramos: Deus não só nos dá vida. Deus se nos dá como vida.
