Aurora Campos nos aproxima da apaixonante história de santa Madalena de Nagasaki, terciária agostiniana recoleta e uma das grandes mártires do cristianismo japonês. Por meio de uma narrativa cheia de força e sensibilidade, descobrimos a vida de uma jovem formada pelos agostinianos recoletos que preferiu entregar a própria vida a renunciar à sua fé em Cristo, tornando-se um testemunho imperecível de fidelidade e esperança.
Uma infância forjada na fé e na perseguição
O sol de outubro caía sobre as ruas de paralelepípedos de Nagasaki enquanto um lamento surdo corria entre a multidão. Com as mãos amarradas por trás do pescoço, com os ombros rígidos pela tensão das cordas, santa Madalena avançava montada a cavalo rumo à sua execução. Ao seu redor, outros dez cristãos caminhavam entre a poeira.
Apesar do balanço da montaria e da dor que lhe penetrava os ossos, de seus lábios não brotavam queixas, mas um murmúrio constante de orações e louvores. O contraste era impressionante: vestia o pesado hábito negro de lã dos agostinianos recoletos, gasto pelos anos de missão na montanha, cujo áspero roçar contra a pele lembrava a seriedade de sua consagração. Do alto da cavalgadura, com o olhar em chamas, Madalena não parava de falar. Sua voz, clara e firme, rompia o ar tenso para exortar os pagãos a abraçar a fé do Deus verdadeiro e os católicos temerosos a resistirem com firmeza sob o açoite da perseguição.
Madalena conhecia bem a fragilidade humana. Tinha visto muitos vacilarem, sufocados pelo medo, abandonando a cruz para salvar a vida. Por isso, um mês antes, no úmido setembro de 1634, decidiu dar um passo à frente. Sem esperar ser denunciada na penumbra de um esconderijo, caminhou decidida até o palácio do governador. Apresentou-se vestida com seu hábito de terciária, desafiadora e serena, entregando-se voluntariamente. Não buscava a morte por fanatismo, mas acender uma centelha de fervor nos corações mornos, demonstrando que a fé não era uma teoria, mas um dom absoluto pelo qual valia a pena derramar até a última gota de sangue.
Aquela coragem não tinha brotado do nada; ela a trazia gravada nas entranhas e na memória de seu lar. Nascida por volta de 1610 em uma pequena aldeia próxima a Nagasaki, onde o ar cheirava a mar e a pinho, Madalena cresceu aprendendo que ser cristão no Japão equivalia a uma sentença de morte. A fé era vivida no silêncio das noites, sob o tremeluzir de velas escondidas. Nas ilhas, o édito do xogum perseguia o catolicismo com uma fúria implacável: as igrejas eram reduzidas a cinzas, a fumaça dos incêndios turvava o céu e os fiéis eram submetidos a tormentos concebidos para quebrar a alma antes do corpo.
Sua educação foi uma dupla escola de martírio. A primeira lição recebeu do próprio sangue: entre 1614 e 1624 viu partir, um a um, seus pais e irmãos rumo à morte por defenderem a cruz. A segunda lição foi esculpida em seu espírito pelos frades agostinianos recoletos. Tinha apenas catorze anos quando conheceu o beato Francisco de Jesus nos escarpados montes de Nagasaki, onde o musgo sela as rochas e a neblina esconde tudo. Fascinada pela entrega do missionário, a jovem tornou-se sua sombra. Caminhava descalça pelos caminhos íngremes carregando catecismos, ajudando a instruir as crianças e consolando as famílias em refúgios improvisados que cheiravam a terra molhada e a medo.
Sob a orientação de Francisco, vestiu a correia e o hábito de terciária agostiniana recoleta, tornando-se uma “cinturada”. Quando, em 1629, os carrascos prenderam os beatos Francisco de Jesus e Vicente de Santo Antônio, o mundo pareceu escurecer, mas Madalena multiplicou suas forças. Burlava a vigilância dos guardas, levava recados às prisões escuras e pestilentas e se nutria da coragem de seus pais espirituais. Ao vê-los marchar rumo à pira, o crepitar do fogo e o cheiro de fumaça sagrada ficaram gravados para sempre em seu coração, preparando-a em segredo para sua própria hora.
Formada pelos agostinianos recoletos, fortalecida pelo martírio
Enquanto o cavalo avançava penosamente rumo ao lugar do suplício, as lembranças refrescavam a alma da jovem. Recordou como a Providência, após a execução de seus amados pastores, enviou um bálsamo a Nagasaki: os beatos Melchor de Santo Agostinho e Martín de San Nicolás. Com eles, o aroma da esperança voltou a impregnar as comunidades ocultas. No entanto, o consolo foi efêmero. Dois meses depois de pisarem em solo japonês, o frio aço das correntes os capturou, sendo martirizados em 11 de dezembro de 1632, sob um céu cinzento e invernal.
Com apenas vinte e dois anos, sozinha e em um Japão onde já não restavam frades de sua Ordem, Madalena se recusou a se acovardar. Sua juventude e seu corpo miúdo abrigavam uma vontade de ferro. Uniu então seus passos aos do dominicano Jordán de San Esteban. Embora ele lhe propusesse vestir o hábito de São Domingos para integrar-se ao seu trabalho, ela preferiu manter os laços com seus primeiros mestres. Por isso, ao entregar-se ao governador e agora, ao marchar rumo ao cadafalso, ostentava com orgulho o saial dos recoletos, um estandarte de gratidão àqueles que lhe ensinaram o caminho do céu.
Ao vê-la chegar ao tribunal, jovem, de pele viçosa e de uma beleza serena, o governador tentou quebrantá-la por meio da sedução. Ofereceu-lhe riquezas, sedas finas e uma vida de privilégios longe das prisões em troca de uma única palavra de apostasia.
Diante da recusa firme de Madalena, a engrenagem do terror entrou em ação.
Primeiro, submeteram-na ao tormento da água: obrigaram-na a ingerir imensas quantidades de líquido até inflar o ventre, para depois golpeá-la violentamente no estômago, forçando-a a expulsá-lo misturado com sucos gástricos e sangue. Ao verem que seu rosto encharcado permanecia firme, os carrascos passaram a uma crueldade mais refinada. Cravaram afiadas lascas de bambu sob as unhas, rasgando a carne viva, e a obrigaram a escavar a terra com as mãos ensanguentadas. O estalo do bambu e os gritos de dor de outros prisioneiros enchiam a sala, mas Madalena, com os olhos fixos no crucifixo invisível de sua memória, resistiu ao tormento.
Derrotado por sua firmeza, o governador ditou a sentença definitiva: o tormento da “forca e do fosso”. Era um método tão aterrorizante que bastava nomeá-lo para que muitos apostatassem de pavor. Consistia em amarrar as vítimas pelos pés e suspendê-las de cabeça para baixo dentro de um fosso profundo cheio de imundícies. A cintura ficava aprisionada por tábuas herméticas que impediam a entrada de luz e ar, provocando que o sangue se acumulasse violentamente no cérebro e nos olhos.
Ao chegar ao local do suplício, o fedor do fosso e a aspereza das madeiras não lhe tiraram a paz. Madalena foi baixada ao fosso. Na penumbra absoluta da terra, a congestão começou a fazer estragos, mas sua resistência desafiou a ciência da morte: sobreviveu treze dias e meio naquela agonia vertical. A morte não lhe veio pelo desígnio de seus carrascos, mas por uma intensa tempestade que desabou sobre Nagasaki. A água da chuva correu pela terra, infiltrou-se no fosso congelando seu corpo e a afogou lentamente na lama.
Um testemunho que continua iluminando a Igreja
Para apagar sua memória, os soldados queimaram seu corpo extenuado junto com os restos de seus companheiros, espalhando as cinzas acinzentadas nas águas do mar. Tentaram fazê-la desaparecer, mas o vento levou seu testemunho através dos oceanos. Sua alegre simplicidade e a firmeza de sua fé atravessaram os séculos.
Hoje, sob o céu de Nagasaki e muito perto do solo que absorveu seu sangue, recorta-se contra o horizonte uma bela estátua em sua honra. Com seu hábito esculpido em pedra ondulando ao vento, santa Madalena continua de pé: um símbolo eterno de milhares de leigos que, sem outras armas além do amor, preferiram o fosso a trair sua fé.



