Skip to content Skip to sidebar Skip to footer

A parábola do semeador: Jesus sai para semear vida em nosso coração

Frei Luciano Audisio comenta o Evangelho da parábola do semeador mostrando como Jesus inaugura um novo êxodo: sai para reunir o seu povo e para semear a Palavra que transforma o coração e dá fruto abundante.
campo-plano-verde-36578840

Em seu comentário ao Evangelho deste domingo, frei Luciano Audisio, OAR, convida-nos a descobrir a parábola do semeador a partir de uma perspectiva profundamente bíblica. Antes de ser um ensinamento sobre os diferentes terrenos, esta reflexão revela o modo como Deus atua na história: sai ao encontro do ser humano, reúne-o como povo e semeia nele a vida nova de Cristo. Uma leitura que une o Êxodo, a Páscoa e a missão de Jesus em uma mesma história de salvação.

Jesus sai para reunir o seu povo

O Evangelho de hoje apresenta-nos Jesus em um momento decisivo de seu ministério: ele começa a falar em parábolas. Mas antes de entrar na parábola do semeador, o evangelista oferece-nos uma chave fundamental para toda a sua compreensão. Não estamos diante de um simples método pedagógico, mas de uma revelação sobre o próprio modo como Deus atua e se comunica.

O texto diz que Jesus «saiu de casa e sentou-se à beira-mar» (ἐξελθὼν τῆς οἰκίας ἐκάθητο παρὰ τὴν θάλασσαν). Nada neste início é casual. Jesus «sai» (ἐξελθών), e esse verbo remite imediatamente ao êxodo. É a mesma dinâmica de Deus na história: um Deus que não permanece fechado em si mesmo, mas que sai, que se aproxima, que irrompe na história para libertar.

Este “sair” de Jesus é a verdadeira saída do Egito. O Egito já não é apenas um lugar geográfico: é tudo aquilo que acorrenta o ser humano, toda forma de escravidão interior, de morte, de opressão. Jesus é o novo êxodo, a Páscoa viva de Deus no meio do mundo.

E senta-se à beira-mar. O “mar” (θάλασσα), embora geograficamente seja o lago da Galileia, é chamado assim pelo evangelista porque evoca o Mar Vermelho, o lugar da passagem de Israel da escravidão para a liberdade. Mas o mar, na Escritura, é também símbolo do caos, do indomável, das forças da morte. Jesus senta-se ali, no limite, no lugar da passagem. Ele mesmo se torna o ponto de trânsito entre a morte e a vida.

Sentado, como mestre, ensina. Sua palavra não é teoria: é caminho de passagem. Ouvir Jesus é atravessar o mar.

O evangelista acrescenta que “reuniram-se diante dele grandes multidões” (καὶ συνήχθησαν πρὸς αὐτὸν ὄχλοι πολλοί). O verbo está na passiva: foram reunidas. Não é apenas um movimento humano espontâneo. É Deus quem reúne. É o mesmo dinamismo da Páscoa: Deus congrega o seu povo para fazê-lo passar.

Aqui Jesus aparece como nova sinagoga, o lugar onde Deus reúne. E, ao mesmo tempo, como “sínodo”, ou seja, aquele em torno do qual o povo caminha junto. Toda a humanidade é convocada a reunir-se em torno d’Ele para iniciar um novo êxodo.

Nesse contexto, Jesus começa a falar em parábolas. E diz: “Falou-lhes muitas coisas em parábolas, dizendo” (ἐλάλησen αὐτοῖς πολλὰ ἐν παραβολαῖς λέγων).

A parábola não é apenas uma comparação. Em hebraico, mashal (משל), é uma forma de revelar escondendo e de esconder revelando. Jesus olha para a vida cotidiana e nela descobre o mistério de Deus. Mas, ao mesmo tempo, a parábola torna-se um mar que deve ser atravessado. Não é um discurso que simplifica, mas uma palavra que introduz na profundidade.

E a primeira parábola começa também com um “sair”: “Eis que o semeador saiu a semear” (ἰδοὺ ἐξῆλθεν ὁ σπείρων τοῦ σπείρειν). Mais uma vez o êxodo. Deus sai para semear. O movimento de Deus não é apenas libertar: é também semear vida no coração do mundo.

A semente que transforma o coração

E aqui aparece uma chave decisiva: a semente é a Palavra, mas, em última análise, é o próprio Cristo. Ele é a semente que cai na terra da nossa história, que morre e dá fruto. Se não cair na terra e morrer, fica sozinha; mas se morre, produz vida nova.

A parábola do semeador mostra-nos, então, o combate por essa semente.

Primeiro aparecem as aves do céu. Não são um simples detalhe decorativo. Representam aquilo que arrebata a semente antes que ela crie raízes. O Evangelho não é ingênuo: existe uma força contrária a Deus, uma resistência real ao mistério da Palavra. É o inimigo que tenta impedir que Cristo entre no coração do homem.

Depois vem a semente que cai em terreno pedregoso, onde não há profundidade. É a imagem do entusiasmo inicial que não resiste à prova. Há uma experiência autêntica de Deus, mas sem raízes. Quando chega a dificuldade, tudo se desvanece. Jesus convida-nos aqui a voltar à memória do primeiro encontro, a não viver apenas de emoções religiosas, mas a amadurecer na fidelidade.

Depois aparecem os espinhos. São as preocupações, as ansiedades e as dependências interiores que sufocam a Palavra. Não são necessariamente coisas más em si mesmas, mas sim realidades que ocupam demais o coração e acabam sufocando a vida de Deus. Aqui o chamado é ao discernimento: que coisas estão ocupando o lugar de Deus em nossa vida?

Finalmente, a terra boa. E aqui aparece a grande notícia do Evangelho: a fecundidade é transbordante. Não é uma lógica de equilíbrio, mas de abundância. Quando a Palavra encontra um coração aberto, a vida se multiplica para além do imaginável.

A Palavra continua semeando vida hoje

A chave de toda a cena é esta: Jesus saiu para semear, para reunir e para abrir uma passagem. Ele mesmo é quem atravessa o mar e nos ensina a atravessá-lo.

Por isso, ouvir esta parábola não é apenas compreender um ensinamento. É deixar-se introduzir no êxodo de Jesus. É permitir que a sua Palavra nos tire das nossas escravidões, nos reúna como povo e nos faça entrar em uma vida nova.

Hoje o Senhor continua saindo. Continua semeando. Continua reunindo. E continua nos dizendo, no meio do nosso próprio “mar”: não tenha medo, passe para a outra margem.

Compartilhar:

Assine nossa newsletter