A Eucaristia presidida pelo Prior Geral, frei Miguel Ángel Hernández, abriu oficialmente os trabalhos capitulares com um convite a viver o discernimento comunitário a partir da escuta, da oração e da caridade.
A Província Santo Tomás de Villanueva da Ordem de Agostinhos Recoletos iniciou no passado 13 de julho o seu 38.º capítulo provincial com a celebração da Eucaristia do Espírito Santo no Sítio Santo Agostinho, no Rio de Janeiro (Brasil). A celebração foi presidida pelo Prior Geral, frei Miguel Ángel Hernández, que convidou os capitulares a compreender este tempo como uma autêntica experiência espiritual de discernimento e não unicamente como um processo de governo.
Desde o início da homilia, o Prior Geral situou o sentido profundo do capítulo:
“Hoje não estamos simplesmente iniciando um capítulo provincial. Estamos entrando em um tempo de graça, um tempo em que o Senhor nos reúne como comunidade para ouvir sua voz e discernir juntos os caminhos do futuro”.
Um capítulo para buscar juntos a vontade de Deus
Tomando como referência o Concílio de Jerusalém narrado nos Atos dos Apóstolos, frei Miguel Ángel recordou que a Igreja enfrentou desde os seus primeiros anos desafios que só puderam resolver-se mediante o discernimento comunitário.
O Prior Geral destacou a célebre expressão usada pelos apóstolos: “Pareceu bem ao Espírito Santo e a nós”, sublinhando que a ordem dessas palavras não é casual.
“Ele não diz: ‘Pareceu bem a nós e esperamos que pareça bem ao Espírito Santo’. Ele diz primeiro que o Espírito vem primeiro e a comunidade o segue, discernindo onde sopra”, explicou.
A partir desta cena bíblica, definiu qual deve ser a identidade de todo capítulo provincial: “Esse é o programa de todo capítulo autêntico. Este tem que ser o coração do nosso capítulo. Não se trata apenas de organizar, analisar e votar. Trata-se de buscar juntos a vontade de Deus ”.
Neste sentido, recordou que um capítulo não pode reduzir-se a uma dinâmica parlamentar.
“Um capítulo não é um parlamento. Não viemos defender interesses, nem impor maiorias, nem garantir cotas. Viemos para ouvir”, afirmou.
Ele foi ainda mais longe ao descrever a natureza espiritual desta assembleia: “O capítulo, em sua raiz mais profunda, é um ato litúrgico prolongado. É um ato de adoração que se expressa na busca conjunta da vontade de Deus para a nossa província neste momento da história”.
Escutar a Deus também através dos irmãos
Inspirando-se em santo Agostinho, o Prior Geral recordou que o discernimento só é possível a partir da comunhão.
“Santo Agostinho nos lembra que Deus fala também por meio dos irmãos. Ele sabia que ninguém possui a verdade em sua totalidade e que a comunhão não nasce quando todos pensamos igual, mas quando nos colocamos todos juntos à escuta do único Mestre”, assinalou.
Por isso animou os capitulares a cultivar uma escuta humilde e sincera durante todo o processo capitular.
“Quando uma comunidade escuta com humildade, dialoga com sinceridade e coloca Cristo no centro, o Espírito encontra espaço para agir”, assegurou.
Frei Miguel Ángel expressou ainda seu desejo de que as conclusões do capítulo não sejam apenas fruto do trabalho humano, mas da ação de Deus: “Não será simplesmente o fruto de nossas deliberações, mas da ação silenciosa do Espírito em uma comunidade que se deixa conduzir por Ele”.
Uma casa construída por Deus
Meditando o salmo responsorial, o Prior Geral recordou que toda renovação autêntica começa pondo Deus no centro.
“Se o Senhor não constrói a casa, em vão se cansam os construtores. Podemos trabalhar muito, discutir muito, planejar muito; mas, se o Senhor não está no centro, tudo se torna vazio”, afirmou.
Por isso convidou a viver o capítulo a partir de uma profunda atitude de humildade.
“Temos que trabalhar, sim, mas sabendo que a obra é do Outro. Temos que contribuir, sim, mas não pretender controlar. Temos que discernir, sim, mas não impor”, assinalou.
E acrescentou uma das ideias centrais de toda a homilia: “Talvez o melhor serviço que possamos oferecer nestes dias não seja tanto o brilho de nossas ideias, mas a docilidade com que deixamos Deus ir construindo a Província”.
Permanecer no amor para dar fruto
A reflexão concluiu com o Evangelho do discurso de despedida de Jesus durante a Última Ceia.
O Prior Geral recordou que o fundamento último de qualquer decisão capitular não são as estruturas nem as estratégias, mas o amor.
“Não se trata de doutrina, não se trata de estruturas, não se trata de regulamentos. Trata-se de amor. Permanecer no amor de Cristo é a condição de possibilidade de todo o resto: do apostolado, do governo, da renovação e do discernimento”, explicou.
Com essa mesma força advertiu:
“Um capítulo que não brota do amor se transforma em uma reunião de gestão. Um capítulo que nasce do amor pode mudar o rumo de uma província”.
Esse amor, acrescentou, é o amor concreto de Cristo: “Um amor que lava os pés; um amor que vai ao encontro de quem erra; um amor que dá a vida; um amor que vai além das afinidades naturais, além das gerações e além das diferentes visões sobre o futuro da Ordem e da Província”.
Três imagens para viver o capítulo
Antes de concluir a homilia, frei Miguel Ángel Hernández deixou aos capitulares três imagens que servissem de guia durante as jornadas de trabalho.
A primeira foi a dos apóstolos reunidos em Jerusalém: “Homens que não estavam de acordo, mas que encontraram o Espírito no meio de suas discussões honestas e fraternas. O Espírito não foge do conflito; bem conduzido, Ele o habita e o fecunda”.
A segunda foi a da casa que só Deus pode construir: “Uma província, uma comunidade, uma Ordem, um capítulo, é sempre uma obra em construção. E aqui está o decisivo: não somos nós os principais arquitetos”.
Por fim, recordou as palavras de Jesus: “Não fostes vós que me escolhestes, mas fui eu que vos escolhi e vos destinei para que vades e deis fruto”, afirmando que “o capítulo não cria a vocação; ele a reconhece e a coloca a serviço de todos”.
Como desejo para o futuro, expressou: “Que, quando já tivermos ido embora do Rio de Janeiro, recordemos este capítulo não pelos documentos que aprovamos, mas porque aqui aprendemos mais uma vez a escutar o Espírito do Senhor”.
A homilia concluiu com uma referência à Regra de Santo Agostinho e uma oração pelos trabalhos capitulares: “Que tudo o que fizerdes, o façais com amor, in caritate, e que o amor que nos une seja mais belo ao final do capítulo do que no começo”.
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