Em uma época marcada por crises profundas e interligadas — guerras, degradação ambiental, desigualdades, migrações e perda de solidariedade e valores espirituais — a urgência de uma resposta profética e coletiva da Vida Consagrada aumenta.
Esta oficina teve como objetivo construir uma visão compartilhada de paz positiva, baseada na conexão com Deus, com os outros e com toda a criação. Entre os tópicos abordados estavam os fundamentos bíblicos e espirituais, a identificação de desafios na economia, na política, no clima e nos conflitos, a não violência evangélica como um caminho e as ferramentas disponíveis para a Vida Consagrada em seu papel profético.
A oficina proporcionou um tempo de profunda escuta do mundo, da criação, dos pobres e, sobretudo, dos próprios corações. Através de uma reinterpretação agostiniana, fomos convidados a retornar ao nosso interior, onde Deus fala e novos caminhos nascem.
Nesta oficina, sentimos nossos corações baterem de forma diferente novamente. Viemos a Roma de todas as partes do mundo, com histórias diferentes, mas com um anseio em comum: compreender a realidade a partir daquele coração para o qual Santo Agostinho tantas vezes nos convida a retornar.
Precisamos abrir nossos olhos, mentes e corações para enxergar a realidade. Na oficina, sentimos profundamente o sofrimento do mundo, demos rosto e realidade às injustiças e ouvimos os clamores dos excluídos.
Não se tratava de aprender um método ou compartilhar uma ideologia, mas de viver uma espiritualidade que une missão e identidade. Santo Agostinho disse que o coração é o “centro unificador” e que a transformação do mundo não começa de fora, mas de dentro.
Falar de justiça é falar de Deus. Sua santidade é a justiça viva — próxima, compassiva. Não é uma justiça fria ou transacional, mas parcial em seu melhor sentido: sempre se inclina para os mais vulneráveis entre nós. Experimentamos o significado bíblico de justiça, aquele shalom que significa não apenas a ausência de conflito, mas plenitude, integridade e vida compartilhada.
Somos chamados a uma justiça que nasce da contemplação e se concretiza no apostolado, que escuta as vítimas e lhes restitui a dignidade. A justiça mais profunda surge quando a vítima é acolhida, ouvida e amparada. Essa justiça não brota das leis, mas do coração que restaura a dignidade através do amor.
A Criação foi outra grande mestra durante a oficina. Vivenciamos a Criação como uma dádiva, uma presença, um sacramento, como um livro aberto onde Deus escreve com beleza e paciência. Mas também chegamos a conhecer sua dor, esse grito da terra e dos pobres que nos inquieta. Não podemos olhar para a degradação da nossa Casa Comum sem olhar para aqueles que mais sofrem com ela. Não há ecologia integral sem justiça social.
Por exemplo, por trás de tanta conversa sobre “energia verde” escondem-se novas formas de exploração no Sul Global, onde existem minerais e recursos que não deveriam ser obtidos à custa dos mais vulneráveis. É por isso que sabemos que a Criação é um sujeito de direitos, não um objeto do capital. A Terra é uma mãe, não um depósito; é o ambiente onde encontramos Deus, os outros e todos os seres vivos.
A paz se constrói sobre a fraternidade.
A paz, mais do que um conceito abstrato, é um esforço artesanal. Ela se constrói com a contribuição de todos, abraçando a diversidade e a complementaridade. Ampliou seus horizontes: do direito aos direitos, do desenvolvimento à solidariedade e, agora, à fraternidade universal.
Jesus mostrou que o caminho mais frutífero é a não violência: oferecer o próprio corpo sem recorrer à força, resistir sem odiar, amar mesmo quando é difícil. É uma forma concreta de discipulado; é permitir que Cristo desarme, por meio de nós, tudo aquilo que gera violência.
Durante a oficina, os povos originários compartilharam conosco sua sabedoria, aprimorada ao longo de séculos de harmonia e reciprocidade com nossa Casa Comum. O que é tirado da Natureza é tirado de todos nós. Eles não precisam de pena, mas sim de respeito, escuta e apoio. São guardiões de uma verdade que o mundo esqueceu: tudo está interligado! São especialistas em respeitar suas tradições e cuidar do território que lhes foi confiado.
Ao final deste workshop, uma convicção surgiu em todos nós que participamos: a transformação sistêmica de que o mundo precisa começa no coração de cada um de nós. É ali que Deus nos fala, ali que descobrimos que somos uma família, ali que a esperança brota.
Santo Agostinho sabia disso muito bem: somente aqueles que retornam aos seus corações podem transformar o mundo por dentro. E talvez esse seja o maior serviço da JPIC hoje: ajudar-nos a despertar nossos corações para que toda a criação possa viver em justiça, paz e fraternidade.










