Skip to content Skip to sidebar Skip to footer

Essa foi uma das discussões mais fascinantes e menos conhecidas sobre a verdade na história da filosofia

Com o filósofo Martín Heredero, aproximamo-nos de Santo Agostinho para aprender qual é o fundamento da verdade e como saciar nossa sede de verdade, mesmo nestes tempos em que a opinião quer tomar o trono da epistemologia.
Santo Agostinho e a verdade.

É sabido que a filosofia consiste no amor à sabedoria e, portanto, na busca constante pela verdade. Contudo, antes de nos dedicarmos à filosofia, talvez devêssemos considerar a própria natureza da verdade. Ou seja, devemos questionar se a verdade é possível e, caso possamos aceitar algum grau de verdade, devemos elucidar o que ela é e onde reside sua validade.

Claro, podemos aceitar que julgamentos como “parece-me frio” estão além da discussão, já que há pouco a discutir sobre o que me parece dentro do âmbito da subjetividade.

Contudo, quando falamos de verdade, parece que julgamentos baseados em impressões subjetivas e voláteis, tão sujeitas a circunstâncias mutáveis, são insuficientes. O frio que sinto pode mudar rapidamente, e posso sentir calor. Além disso, minha percepção sensorial nem sempre é infalível quanto à objetividade do mundo. Portanto, podemos entender que esse não é o tipo de verdade que buscamos.

Santo Agostinho expressa algo semelhante em sua obra Contra os Acadêmicos. No entanto, estou interessado em refletir sobre o argumento a respeito da verdade que aparece em Sobre o Livre-Arbítrio. Ele se encontra no Livro II e abrange aproximadamente os capítulos VII a XV. Nesses poucos parágrafos, encontramos uma das discussões mais fascinantes — e, curiosamente, menos conhecidas ou citadas — sobre a verdade na história da filosofia.

O santo Bispo de Hipona começa por mostrar que a verdade buscada na busca da sabedoria é tal que todos os que estão na verdade podem observá-la ao mesmo tempo e da mesma maneira.

É evidente que estamos lidando aqui com uma noção de verdade que transcende a informação que os sentidos podem nos dar, visto que Santo Agostinho se refere a uma verdade eterna e necessária.

Nosso autor encontra um exemplo dessa verdade na aritmética. Embora minhas sensações corporais estejam em constante mudança, posso encontrar certeza absoluta em um julgamento como “três mais sete é igual a dez”.

Essa verdade não pode ser refutada pelo cético; ela não depende do sujeito que a pensa — já que oferece um critério normativo claro, pois sabemos que o juízo “três mais sete é igual a onze” está errado — nem dos sentidos, visto que a relação aritmética é apreendida diretamente pela mente.

Além disso, diferentemente da sensação corporal, essa verdade é incorruptível. Constatamos, então, que o modelo ideal de verdade para Santo Agostinho envolve a matemática, como Platão já havia pensado.

Como pode a mente humana descobrir e compreender essas verdades eternas e necessárias ? Uma vez que se demonstrou que seu fundamento não se encontra nos sentidos, surge a questão de saber se elas são sustentadas pela própria mente humana. E Santo Agostinho responde claramente: não.

O santo destaca que a verdade é “mais sublime do que o nosso espírito e a nossa razão” (De Lib. Arbitr. II, 13, 35), precisamente porque o nosso entendimento também é mutável, enquanto as verdades da aritmética permanecem eternas e imutáveis.

Diríamos, então, que somente um entendimento eterno e imutável pode ser o fundamento dessas verdades que o homem apreende, embora nem sempre infalivelmente, por meio de sua própria razão.

Essa mente capaz de conceber razões matemáticas deve ser tão eterna quanto eles, e com isso fica claro que, para Santo Agostinho, a possibilidade da verdade requer a existência de Deus, cuja mente não é apenas o suporte ontológico da verdade, mas idêntica a ela.

Assim, compreendemos que cada vez que o homem encontra a verdade, ele está encontrando, em sentido estrito, algo superior a si mesmo, com o qual, no entanto, está intimamente ligado.

Definir a natureza exata dessa união nos levaria além do escopo deste texto, visto que os estudiosos agostinianos ofereceram inúmeras interpretações dessa doutrina. De qualquer forma, podemos apresentar alguns pontos essenciais sobre como o Bispo de Hipona a explica.

Em seu comentário sobre o Salmo 118 (Serm. 18, 4), ele escreve: “Deus também criou a mente racional e intelectual do homem, por meio da qual ele pudesse perceber a sua luz”. Aqui encontramos a doutrina agostiniana da iluminação. Assim como o sol ilumina os objetos da visão, a iluminação divina ilumina os do intelecto.

É importante ressaltar que isso não significa que o entendimento humano, por meio dessa iluminação, contemple a ideia em si tal como existe na mente de Deus, nem que Deus infunda ideias diretamente na mente humana.

A luz solar também não cria imagens de objetos; ela apenas os torna visíveis. Portanto, a iluminação não nos incute os conceitos de “três” e “sete”, mas sim nos permite ver que a relação entre eles, quando os somamos, é eterna e necessária.

Em conclusão, podemos afirmar que, mesmo sem poder ter experiência direta da essência divina nesta vida, distinguimos as relações necessárias, imutáveis e eternas entre os conceitos de juízos verdadeiros.

E isso não pode provir dos nossos sentidos ou das nossas projeções mentais, mas de uma fonte eterna. Devemos, portanto, considerar a relação da nossa alma com Deus para explicar algo tão elementar, mas tão fascinante, como a descoberta da verdade aritmética, inegável na experiência do exercício da nossa razão natural, que revela o fundamento teológico da epistemologia.

E essa luz, distinta da própria compreensão — ao contrário de algumas interpretações tomistas — torna possível o encontro com a verdade dentro das fragilidades do intelecto da criatura. Parece que somente assim essa busca, tão concisamente formulada por Santo Agostinho em seus Solilóquios (II, 7), pode ser satisfeita:

A: Eu orei a Deus.
R: Então, o que você quer saber?
A: Tudo o que eu pedi.
R: Resuma brevemente.
A: Quero conhecer a Deus e a alma.
R: Nada mais?
A: Nada mais.

Compartilhar:

Assine nossa newsletter