O Evangelho deste domingo nos coloca diante de palavras de Jesus que não deixam espaço para a neutralidade. São palavras que atravessam toda a vida e a obrigam a ordenar-se a partir de uma decisão fundamental: o que ocupa realmente o centro do coração.
Jesus fala dos vínculos mais sagrados: o pai, a mãe, os filhos; fala da cruz; fala da vida que se perde e que se encontra. E nesse conjunto de afirmações aparece uma pergunta silenciosa, mas decisiva: o que é o absoluto na nossa existência?
Quando Jesus diz: «Quem ama o pai ou a mãe mais do que a mim não é digno de mim» (Ὁ φιλῶν πατέρα ἢ μητέρα ὑπὲρ ἐμέ οὐκ ἔστιν μου ἄξιος), não está negando o amor humano, mas purificando-o da sua deformação mais sutil: a idolatria. Porque a idolatria não consiste apenas em adorar falsos deuses de pedra ou de madeira; consiste em absolutizar o relativo, em converter em último aquilo que é penúltimo, em pedir a uma criatura o que só Deus pode dar.
O perigo dos ídolos
Assim, o trabalho pode tornar-se um ídolo, a família pode tornar-se um ídolo, e até as relações mais belas podem tornar-se ídolos quando as carregamos com uma expectativa infinita. E então, em vez de nos libertar, escravizam-nos; em vez de nos preencher, desgastam-nos; em vez de nos sustentar, decepcionam-nos. Porque o finito, quando se torna absoluto, acaba por romper-se sob o peso daquilo que não pode suportar.
Carregar a cruz: integrar a própria história
Nesse contexto se entende a segunda palavra de Jesus: «Quem não toma a sua cruz e me segue não é digno de mim» (καὶ ὃς οὐ λαμβάνει τὸν σταυρὸν αὐτοῦ καὶ ἀκολουθεῖ ὀπίσω μου, οὐκ ἔστιν μου ἄξιος). A cruz não é, em primeiro lugar, o sofrimento genérico da vida, mas aquilo que não aceitamos, o que nos custa integrar, o que nos dói reconhecer como parte da nossa história. É aquilo que preferiríamos deixar de lado, mas que, no entanto, nos constitui.
E aqui o Evangelho é profundamente libertador. Jesus não pede que nos apresentemos a Ele sem feridas, sem contradições ou sem fragilidades. Não pede uma vida já ordenada, mas uma vida oferecida. Não pede que escondamos a nossa cruz, mas que a tomemos. Ou seja, que não vivamos negando o que somos, mas integrando-o no caminho do seguimento.
Porque quando uma pessoa tenta eliminar da sua vida tudo o que a faz sofrer antes de se aproximar de Deus, acaba por se afastar precisamente do lugar onde Deus quer encontrar-se com ela. A cruz, então, não é o obstáculo para seguir Jesus, mas o lugar onde o seguimento se torna real.
Perder a vida para encontrá-la
E daqui se compreende a terceira palavra: «Quem encontrar a sua vida, perdê-la-á; e quem perder a sua vida por minha causa, encontrá-la-á» (Ὁ εὑρῶν τὴν ψυχήν αὐτοῦ ἀπολέσει αὐτήν, καὶ ὁ ἀπολέσας τὴν ψυχήν αὐτοῦ ἕνεκεν ἐμοῦ εὑρήσει αὐτήν). É o grande paradoxo do Evangelho: quem quer segurar tudo acaba por perder-se, e quem se abandona em Deus descobre uma vida mais plena do que poderia imaginar.
Aqui Jesus desmascara uma tentação muito profunda: a de construir a existência como um projeto de controle e de autoafirmação permanente. Como se a vida consistisse em defender espaços, garantir posições, proteger-nos de todo risco. Mas a vida não é isso. A vida é dom, é relação, é caminho.
Por isso o Papa Francisco resume com uma frase muito clara essa dinâmica espiritual: “Não se trata de ocupar espaços, mas de acompanhar processos”. A fé não é uma estratégia de segurança, mas uma forma de caminhar. Não é a tentativa de controlar a vida, mas a decisão de confiar em Deus enquanto a vida acontece.
E aqui aparece o ponto mais decisivo: quando o ser humano deixa de absolutizar-se a si mesmo, deixa também de exigir da vida o que a vida não pode dar. Então as relações se libertam, o trabalho se ordena, os afetos se purificam. Tudo permanece, mas em seu lugar justo. E nessa nova ordem, Deus deixa de ser um concorrente das nossas coisas importantes para tornar-se a fonte de todas elas.
Finalmente, o Evangelho abre uma porta de enorme esperança quando insinua que o acolhimento é também fecundidade. Na lógica da fé, acolher não é simplesmente receber algo externo, mas permitir que o que foi recebido engendre vida nova em nós. Em algumas línguas, como o grego (συλλαμβάνω, “conceber”), o mesmo verbo exprime a ideia de acolher e de engendrar. E isso revela algo profundamente belo: quando o coração acolhe a Deus, não apenas o recebe, mas começa a gestar uma vida nova.
Assim, este Evangelho não é um chamado à renúncia triste, mas à verdadeira liberdade. Carregar a cruz não é carregar um peso inútil, mas deixar de fugir de si mesmo. Desativar os ídolos não é perder o que é valioso, mas deixar de exigir da criatura o que só Deus pode dar. E perder a vida não é fracassar, mas descobrir que a vida verdadeira começa quando deixamos de nos possuir para nos deixarmos amar por Deus.
