Quando o “deslumbramento” fica aquém
É interessante o processo de como este episódio do Evangelho da “Transfiguração” foi sendo assimilado no nosso imaginário coletivo; e é que, uma cena como esta carregada de tanto sentido revelador, muitas vezes é-nos representada e entendemo-la ao modo de um deslumbramento que, embora seja espetacular, acaba por ser algo passageiro; isto, de algum modo, acaba por converter o episódio em algo não tão revelador. Mas, eis que é interessante questionarmo-nos a sério se o facto de Jesus nos deslumbrar verdadeiramente nos comunica algo da sua pessoa, do seu mistério? Afinal, ao ver a luz e o brilho quase instintivamente reagimos e sentimo-nos atraídos — que bom estar ali! — mas, talvez, no caso deste episódio, seja melhor aprofundarmos mais a experiência que o texto nos narra.
A pressa de Pedro e a tentação de “pôr a nossa voz”
Jesus, no primeiro momento do episódio, aparece com gestos que manifestam a sua glória divina: com rosto resplandecente, vestes brancas como a luz e conversando com Moisés e Elias; por outro lado, a Pedro, a Tiago e a João, com quem subiu ao monte até esse ponto, não lhes dirige palavra alguma por enquanto, deles apenas se deixa ver; entretanto, é Pedro quem toma a palavra perante tal situação e se dirige a Jesus para lhe expressar o quão bem está. Mas, aqui, convém aprofundar a atitude de Pedro que, embora recetiva e acolhedora, não deixa de ser precipitada e talvez fora de lugar. E não se trata de que o pobre Pedro seja sempre rotulado de impulsivo, o facto aqui é de outra natureza; esta ação de Pedro permite-nos descobrir uma atitude muito humana que costumamos levar a cabo quando percebemos manifestações divinas; e é que, perante um episódio desta índole, queremos antepor o nosso pronunciamento — a minha voz deve manifestar-se também!; deleitamo-nos e maravilhamo-nos de gestos tão sublimes que nos falam de glória, mas na verdade não entrámos em tal realidade; como os três discípulos, não ouvimos nada divino ainda e, embora vejamos algo que ultrapassa a nossa condição humana, pronunciamo-nos e queremos ter a última palavra, ou, às vezes, a única; conseguindo assim ficarmos em nós mesmos. Talvez, sem nos apercebermos muito, toda esta experiência da “Transfiguração” fica reduzida à linha dos nossos esquemas, deixando perder o que Deus nos quer revelar realmente.
A voz que descoloca e o Jesus que toca
No entanto, a voz de Deus, embora ainda estejamos a falar nós, deixa-se ouvir para além dos nossos pronunciamentos; uma voz potente, que nos descoloca; uma voz ao mais puro estilo do salmo 29: derruba os cedros do Líbano! lança chamas de fogo! sacode os montes!; uma voz que, mesmo assustando, nos faz entrar numa experiência reveladora. E, assim, como que começa uma nova experiência; mais do que um deslumbramento, agora há uma presença que nos faz ouvir e nos convida a ouvir: «Este é o meu filho, o amado, em quem me comprazo, escutai-o.» E descobrimos Jesus, o mistério da sua pessoa que é acreditada pelo Pai, aquele que participa da fonte do amor e nos transmite de lá uma mensagem de consolo e salvação; mensagem que não é ao modo das nossas simples palavras, pois, como narra o mesmo episódio do Evangelho, Jesus aproxima-se, toca os seus discípulos e diz-lhes: «levantai-vos, não temais;» descobrimos Jesus, um mistério para além de um deslumbramento, um mistério para além do pronunciamento das nossas palavras; é Jesus!, quem está connosco nos momentos mais desconcertantes, é Jesus!, o que nos toca e sente a nossa realidade mais profunda, é Jesus!, quem nos salva e nos ajuda a levantarmo-nos das nossas mais fundas penas. Que a partir desta pequena profundização deste episódio do Evangelho possamos fazer releitura das manifestações divinas nas nossas vidas e que possamos verdadeiramente adentrar-nos no mistério de Jesus, da sua pessoa que se nos transfigura.



