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“Buscava o sonho americano, mas encontrei o grande sonho de Deus para mim: ser agostiniano recoleto”

Há 25 anos, a Assembleia Geral das Nações Unidas instituiu o dia 18 de dezembro como o Dia Internacional do Migrante. A experiência migratória de um agostiniano recoleto nos conduz ao mais profundo dessa busca por felicidade e sentido.
Juan José Alfaro, agostiniano recoleto.

Sou Juan José Alfaro, agostiniano recoleto. Nasci em Arandas (Jalisco, México) e tenho 54 anos. Hoje, em minha família, somos seis irmãs e três irmãos; ao todo, porém, meus pais tiveram treze filhos.

Como a maioria dos jovens da região de Los Altos, em Jalisco, eu também sonhava com o chamado sonho americano: cruzar a fronteira por Tijuana, conseguir um emprego, comprar um bom carro e uma bela casa, casar-me com uma loira de olhos azuis e ter muitos filhos… uma vida ideal, sem privações.

Ao concluir o Ensino Médio, por volta dos 16 ou 17 anos, eu já percebia que, em meu país, tanto essa etapa de formação quanto os estudos superiores não garantiam aos jovens uma saída da pobreza, em razão dos salários reduzidos e das escassas oportunidades de trabalho. Somava-se a isso a crise própria da juventude, marcada por conflitos internos, inquietações e pela incerteza diante de um futuro sem perspectivas claras. Esse contexto levou-me a uma vida de festas e excessos, a envolvimentos em brigas de rua e, em algumas ocasiões, a passar por delegacias e detenções temporárias.

As constantes advertências de meus pais não impediram que eu me envolvesse com o álcool e algumas drogas. Sem dinheiro e após o término do namoro — decisão sábia por parte dela — resolvi tentar outra sorte e partir para o Norte, como dizemos no México. Eu queria outra vida.

Cheguei a cruzar ilegalmente a fronteira até sete vezes. Nas três primeiras, fui detido e devolvido a Tijuana. Na quarta, tive de enfrentar todo tipo de dificuldade pelos morros e trilhas. Caminhava rezando inúmeros pai-nossos e ave-marias, escondendo-me dos helicópteros e de seus potentes holofotes. Também me ocultei entre arbustos próximos a um farol gigante que, do alto da montanha no lado norte-americano, nos procurava.

Era essencial não fazer ruído algum, quase não respirar, para não sermos percebidos pelos policiais, com seus Ford Bronco todo-terreno e cães de guarda. Precisávamos evitar a qualquer custo as viaturas da Polícia de Migração e Naturalização, que patrulhavam a extensa cerca metálica que separa Tijuana de San Diego. Após três tentativas, consegui, finalmente, atravessar mais uma vez.

Depois de tantos gritos, ameaças, maus-tratos e agressões durante as detenções, e de ser devolvido repetidas vezes ao México, meus pais me concederam, a contragosto, a bênção para tentar mais uma vez. Minha mãe me deu 50 dólares, que escondi cuidadosamente dentro do cinto.

Viajei de ônibus até Guadalajara e, de lá, segui para Tijuana — cerca de 35 horas de viagem, cruzando o norte do México: Guadalajara, Nayarit, Ciudad Obregón, Mazatlán, Culiacán, Sinaloa, Mocorito, Sonorita, Nogales, Mexicali e, por fim, Tijuana.

Jamais imaginei que, dessa vez, a própria Polícia Federal mexicana seria responsável por nos extorquir nos postos de controle de povoados e cidades, apropriando-se, pouco a pouco, do dinheiro dos migrantes a cada abordagem. Com os centro-americanos, a situação era ainda mais dura do que com os mexicanos. O que me salvou foi o dinheiro de minha santa mãe, escondido no cinto; graças a ele, consegui ao menos me alimentar durante aquela viagem interminável.

Quando finalmente atravessei a fronteira com a ajuda dos coiotes, meu irmão Salvador me aguardava em Los Angeles, Califórnia. Ele me acolheu em sua casa, apoiou-me nos estudos, ajudou-me a encontrar trabalho e a iniciar uma nova vida em Anaheim, Califórnia.

Nesse período, vivi em Chino Hills, South Gate, Monterey Park, Santa Ana, East Los Angeles e Los Angeles, todas cidades da Califórnia. Contudo, em 1994, minha vida deu uma guinada de 180 graus quando conheci alguns religiosos agostinianos recoletos: frei José Luís Martínez, frei Ramón Gaitán e frei Paco Legarra.

Eu possuía uma caminhonete, e eles me pediam que transportasse jovens de diferentes cidades da Califórnia para participarem dos retiros vocacionais em Oxnard, convento recoleto dedicado à promoção vocacional. Em outras ocasiões, os encontros aconteciam no bairro de Watts, em Los Angeles, onde o bispo agostiniano recoleto Dom Alfonso Gallegos, hoje a caminho dos altares, exerceu seu ministério junto aos jovens migrantes.

Ainda não existia o Uber, mas acabei me tornando uma espécie de “Uber vocacional”, ajudando os jovens a participarem dos encontros e retiros. Via como alguns iniciavam o caminho para se tornarem agostinianos recoletos. Após alguns anos acompanhando os vocacionados, os frades me convidaram diretamente a fazer a experiência vocacional. Depois de uma confissão profunda, fui eu quem ingressou na Ordem.

Iniciei minha formação em Oxnard, passando pelas etapas necessárias: aprendizado do inglês, aspirantado, estudos de filosofia e algumas aulas de teologia. Após três anos e meio, fui admitido no noviciado na Espanha (2004–2005).

Na Cidade do México, fiz os votos simples e me incorporei oficialmente à Ordem como religioso. Em 2009, professei os votos solenes e recebi o diaconato. Finalmente, em 2011, pela graça de Deus, com a intercessão de Santo Agostinho, Santa Mônica e de todos os santos, recebi a ordenação sacerdotal na Paróquia de Nossa Senhora de Lourdes, na Cidade do México. Era 31 de julho de 2011, e o bispo ordenante foi o agostiniano recoleto Dom Carlos Briseño.

A busca pelo sonho americano conduziu-me, afinal, ao grande sonho de Deus para mim: o dom de ser agostiniano recoleto. Até hoje, vivo feliz e profundamente agradecido por esse chamado sagrado e belo. Que Deus os abençoe, e que Nossa Senhora da Consolação nos acompanhe e interceda por todos.

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