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100 anos em Lábrea: “Nossa marca deveria ser promover e defender os mais vulneráveis da Amazônia”

O agostiniano recoleto Luís Antônio Fernández (Palência, Espanha, 1963) é o mais veterano na missão amazônica de Lábrea entre todos os religiosos que vivem em uma das três comunidades de sua Ordem. Seu testemunho ilumina a realidade humana e espiritual dos missionários recoletos.
Luís Antônio Fernández  Aguado, missionário agostiniano recoleto em Lábrea, AM, Brasil.

Luís Antônio Fernández Aguado, aos 62 anos, conta com uma longuíssima experiência missionária. Ordenado sacerdote em 1987, foi um dos fundadores da missão africana de Serra Leoa em dezembro de 1996 e atualmente serve na Prelazia de Lábrea desde 1999, após sair às pressas de Serra Leoa em razão da guerra civil.

Esses 26 anos de presença na Amazônia, no Brasil, fazem dele o mais veterano entre os recoletos que hoje vivem em uma das três comunidades recoletas da Prelazia: Lábrea, Pauini e Tapauá. De fato, Luís Antônio fica apenas atrás do bispo emérito, também agostiniano recoleto, Jesus Moraza, que o supera em anos de missão, mas que atua em uma paróquia de criação recente onde não há comunidade recoleta.

Os Agostinianos Recoletos celebram cem anos de presença nesta missão, um lugar de características singulares que marcam profundamente os missionários, moldando sua vocação consagrada e sua vivência espiritual. É sobre essa trajetória e essa experiência que conversamos com ele.

Após tantos anos de serviço missionário, o que alimenta sua motivação para continuar com essa entrega em um lugar com desafios tão significativos?

Creio que seja a alegria de fazer parte dessa história e a impressão de que ainda temos muito a fazer. É claro que é um grande desafio, sobretudo diante das mudanças que vivemos hoje e diante daqueles clamores apontados pelo Papa Francisco em seu documento pós-sinodal Querida Amazônia.

Motiva-me muito estar em uma Igreja pobre e, ao mesmo tempo, viva, com suas luzes e sombras, neste bioma especial e necessário para todos os seres humanos que habitamos o planeta; motiva-me esse contato direto com a natureza.

Motiva-me muito reconhecer e ter consciência de que todos esses anos na Prelazia me ajudaram a crescer como ser humano.

O que sustenta minha vivência vocacional e minha espiritualidade missionária é o amor incondicional de Deus por mim, por cada pessoa e por todas as suas criaturas. Meu impulso fundamental nasce da centralidade de Jesus e de seu Evangelho, e da missão compreendida como serviço ao Reino de vida plena que Jesus deseja para todos e para toda a criação.

Ajuda-me profundamente reconhecer a presença de Deus nos processos históricos de todos os povos. A missão é de Deus, e eu me compreendo mais na tarefa de abrir processos do que de colher frutos. É necessário respeitar o ritmo das pessoas, provocar com a novidade do Evangelho, defender a vida e viver com abertura e entrega, sem exigir resultados imediatos.

Vejo-me aqui feliz, formando e iniciando novos discípulos missionários a serviço do Reino em sua própria terra e com seu próprio povo.

Após essa longa experiência de quase três décadas, quais tarefas eclesiais você considera essenciais, aquelas que não podem se perder?

Sou um entusiasta do Sínodo para a Amazônia e da visão integral da missão que ele propõe, segundo a qual nada pode ser compreendido de forma isolada: as dimensões pessoal, social, cultural, ecológica e eclesial estão profundamente entrelaçadas, formando uma única realidade a ser cuidada e servida.

Partindo desse ponto, para mim sempre foi muito importante — e nunca deveriam se perder — estes quatro aspectos:

  1. a) A formação e o acompanhamento dos líderes leigos, como sujeitos e protagonistas reais de nossa Igreja amazônica.
  2. b) Avançar no modelo eclesial de pequenas comunidades locais, capazes de integrar fé e vida, reunir pessoas e famílias de territórios concretos em contextos específicos, em uma escala humana, próxima e participativa.
  3. c) Implantar um processo de iniciação à vida cristã que nos torne seguidores de Jesus de modo muito mais consciente e comprometido com o Reino. De fato, nos últimos anos, essa tem sido a prioridade da Prelazia. Nossa Igreja é laical; a força vem dos leigos; sem eles, jamais seria o que é.
  4. d) Por fim, a marca de nossa Igreja deveria ser promover e defender a vida dos mais vulneráveis: os povos originários indígenas, os ribeirinhos, os habitantes das periferias urbanas excluídas; e também ser defensora de sua Casa Comum, a partir de uma ecologia integral: sem a floresta, eles não poderiam viver.

Creio que, entre os quatro pontos, este último é aquele que mais exige de nós empenho e conversão, pois é justamente onde mais temos deixado a desejar. Isso supõe assumir com maior firmeza as pastorais e os organismos sociais da Igreja, como o Conselho Indigenista Missionário (CIMI), a Comissão Pastoral da Terra (CPT), a Rede Eclesial Pan-Amazônica (REPAM), bem como as diversas e indispensáveis pastorais sociais — da criança, dos idosos, das gestantes, dos enfermos, das pessoas que sofrem com a dependência do álcool ou de entorpecentes, entre outras. Essa é a forma mais concreta e eficaz de tornar visível um Deus que é amor real, cotidiano, próximo e comprometido com cada pessoa.

Na Missão de Lábrea convivem alguns religiosos com muitos anos de serviço na Amazônia e outros que acabaram de chegar. Como você vê o processo de inserção dos missionários recém-chegados?

Sinto-me preocupado, porque não estamos cuidando desse processo de inserção como deveríamos. Eles chegam sem uma iniciação prévia, e não nos preocupamos suficientemente para que, antes de iniciar sua tarefa, conheçam a história do povo a quem vêm servir, estejam familiarizados com sua cultura e até saibam como foi a própria história da Igreja na Prelazia de Lábrea.

Também não chegam com um domínio suficiente da língua portuguesa, tanto falada quanto escrita. Trata-se de uma pendência que influencia muito sua própria vivência ministerial e o contato com o povo quando chegam.

Creio que deveriam passar por um período prévio de preparação teórica, que depois fosse complementado com um conhecimento mais experiencial. Sem a iniciação e o acompanhamento prévios, podem sentir desorientação, desânimo e inadequação à realidade; inclusive, facilita-se o surgimento de conflitos entre os missionários em nossas comunidades, bem como entre os recém-chegados e o povo a quem servem.

Também devo dizer que eles nos aportam uma identidade externa mais forte como religiosos agostinianos recoletos, dão importância à vida comunitária e, sem dúvida, deixam em nossas comunidades a alegria própria de sua juventude.

Aportam ainda uma grande riqueza cultural e humana, pois os novos missionários são de procedências muito variadas, em sua maioria latino-americanos, o que torna nossas comunidades mais globais e ricas nesse sentido.

Responda de forma breve e concisa às seguintes questões:

  • Como resumiria sua experiência na Amazônia brasileira? Gratidão.
  • Que valor é mais importante na missão? Abertura e entrega a serviço.
  • Como deve ser o missionário agostiniano recoleto? Humilde e simples.
  • O que você mais admira em seus irmãos missionários? Disponibilidade.
  • Que tarefa eclesial mais o interpela e lhe inspira maior felicidade? Atenção e cuidado com os ribeirinhos.
  • Qual foi sua maior dificuldade na Amazônia? Enfrentar meus próprios medos.
  • Que palavra representa sua esperança na Igreja Amazônica? Leigos.
  • Como explicaria o que é uma comunidade eclesial de base? Os pobres como sujeitos da vida eclesial.
  • De que modo você procura viver aqui a espiritualidade cristã? Vivência integral.
  • Defina em uma palavra a centenária missão de Lábrea. Crescendo.
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