O Papa Leão XIV é agostiniano e missionário. Para ele, a missão não é uma tarefa institucional programada, mas uma resposta pessoal ao chamado de Deus, uma oferta constante da própria vida. Não há missão autêntica sem uma profunda vida interior, manifestada na escuta de Deus, na conversão contínua e na disponibilidade humilde.
O processo missionário tem suas etapas: primeiro, a pessoa se deixa transformar; depois, ela é enviada, não para uma missão que é realizada “de cima”, mas para compartilhar a vida cotidiana concreta das pessoas, com paciência, acompanhamento e fidelidade diária.
Segundo o Papa Leão XIV, “numa época marcada por crescentes conflitos e divisões, precisamos de testemunhos autênticos de bondade e caridade para nos lembrarem que somos todos irmãos e irmãs. As palavras não bastam. De facto, ‘o amor e as nossas convicções mais profundas devem ser alimentados, e isso faz-se por gestos. Permanecer no mundo das ideias e dos debates, sem gestos pessoais frequentes e sinceros, será a ruína dos nossos sonhos mais caros’ (Dilexi te, n. 119).”
A missão não é um conjunto de projetos dirigidos pelo clero ou por especialistas pastorais. É um compromisso pessoal que envolve permanecer, acompanhar, compartilhar e tornar-se parte do cotidiano daqueles que são acompanhados, em todos os seus contextos: família, trabalho, comunidade e vida social.
Deste ponto de vista, a solidariedade cristã não é uma ideia política, nem um sentimento genérico de altruísmo, nem uma ética humanista, mas uma exigência evangélica. Nem todo ser humano precisa se sentir altruísta; mas todo cristão deve se sentir missionário, pois isso é parte inescapável da essência de sua fé.
A solidariedade cristã nunca pode ser sobre “ajudar desde fora”. Ela busca reconhecer o outro como irmão/irmã, aceitar que o sofrimento alheio me diz respeito. A Igreja Católica não é uma ONG, certamente, mas seus membros não podem ser indiferentes à injustiça.
A mensagem do Evangelho proclama inequivocamente esta “opção preferencial pelos pobres”. Na Palavra de Deus, espaço e destaque são dados aos que não têm voz, os mais vulneráveis são amparados e qualquer cumplicidade, por menor que seja, com o racismo ou o ódio aos pobres é banida. Deus se sente em casa com os empobrecidos, os migrantes, os idosos, os excluídos, os esquecidos, os marginalizados.
A solidariedade é inclusive um critério de discernimento: um católico que se coloca ao lado dos mais vulneráveis é credível. Não se trata apenas de prestar auxílio material, mas de criar laços, curar divisões e promover uma cultura de encontro. Como lembra Santo Agostinho em seus escritos e como demonstrou em sua Igreja de Hipona, a solidariedade edifica a unidade do corpo eclesial e humano.
Em comemoração ao centenário da Missão Lábrea, na Amazônia brasileira, a Família Agostiniana Recoleta percorreu — ou melhor, navegou — os rios e lagos da floresta tropical para encontrar alguns dos povos mais isolados e esquecidos do mundo. Os missionários de hoje relembram as histórias daqueles que sentiram um chamado tão profundo para a missão que chegaram a dar a própria vida por ela.



