A Declaração Universal dos Direitos Humanos (10 de dezembro de 1948), que comemoramos hoje, foi uma resposta ao horror e à barbárie da guerra. Mas essa foi apenas uma ocasião propícia para finalmente reconhecê-los universalmente. Eles não são produto de consenso político, mas sim a expressão de algo anterior: a dignidade humana.
Afirma Leão XIV em sua exortação apostólica sobre o amor aos pobres, Dilexi te, que a dignidade humana não admite adiamentos nem condições; deve ser presente, absoluta e inegociável.
Os direitos humanos não nos concedem dignidade, mas sim a protegem; são os seus garantes. A dignidade não depende de leis ou organizações. De uma perspectiva cristã, ela tem um fundamento profundo: somos feitos à imagem de Deus, filhos do Pai, templos do Espírito Santo, capazes de nos relacionarmos com Ele, cocriadores e transformadores do mundo.
Essa é a grandeza de ser humano, e nenhum outro poder pode concedê-la ou tirá-la. Ela não se perde; é independente de como nos sentimos, como agimos ou como nos comportamos. Mesmo que façamos mau uso de nossas habilidades, tenhamos habilidades diminuídas ou deixemos de agir de maneira condizente com essa dignidade, não a perdemos.
Medir o valor pelo sucesso ou pelo poder é contrário à dignidade. Hoje, pode parecer antiquado para alguns, revolucionário para outros, defender a ideia de que somos feitos à imagem de Deus. Cada pessoa, independentemente das suas circunstâncias, carrega uma luz que nenhuma sombra pode extinguir.
Defender os direitos humanos, nesse sentido, é salvaguardar esse reflexo divino em cada rosto. É por isso que a Igreja não “assina” os direitos humanos como se fossem concessões: porque o que é concedido num dia pode também ser retirado.
Uma sombra de dúvida paira atualmente sobre os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), que surgiram como um compromisso global para erradicar a pobreza, proteger o planeta e garantir a paz e a prosperidade. Eles são uma atualização da Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948, na forma de um plano de ação concreto.
Os ODS são respostas às injustiças, mas também refletem o anseio por uma vida plena. A Igreja e suas organizações sociais e de solidariedade veem os ODS como uma tradução política e social dos valores do Reino proclamado por Jesus, que não é um conceito abstrato, mas a promoção concreta de maior justiça, fraternidade e sustentabilidade ecológica.
Quando a comunidade internacional se compromete a garantir direitos como educação, saúde, igualdade e paz, está trabalhando — mesmo que não o chame assim — por aquilo que Deus sonhou para a humanidade: que ninguém seja excluído, que a vida seja defendida, que a Terra seja cuidada.
O cerne dos ODS alinha-se com o Evangelho: dignificar o ser humano e restaurar a harmonia com a criação. Não se trata apenas de uma tarefa social, mas também de uma forma de colaborar com o plano de Deus. Defender os Direitos Humanos e todas as suas manifestações (Declaração Universal, ODS) não é simplesmente um ato social, mas um encontro com o plano de Deus.
Diz Leão XIV, no documento já citado: “Não estamos no horizonte da caridade, mas da Revelação; o contato com aqueles que não têm poder nem grandeza é uma forma fundamental de encontrar o Senhor da história.”
Neste dia, a sociedade é chamada à ação; e a Igreja é chamada a difundir os valores do Reino. É um compromisso coletivo e compartilhado. Para nós, que cremos, este dia é uma oportunidade de defender o plano de Deus: que toda vida seja digna, livre e plena.





















