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Fique conosco

O caminho dos discípulos de Emaús: quando alguém se encontra de verdade com o Ressuscitado, já não pode viver do mesmo jeito.
Rembrandt_Emaús_Discípulos

O Evangelho de hoje nos presenteia com um dos relatos mais profundamente humanos e, ao mesmo tempo, mais luminosos de toda a Escritura: o caminho dos discípulos de Emaús. Dois homens que se afastam de Jerusalém, isto é, que se afastam do lugar onde tudo havia acontecido, mas também do lugar onde tudo parecia ter terminado.

Eles vão embora porque não aguentam mais. Jerusalém se tornou insuportável para eles: ali Jesus morreu, ali suas esperanças se despedaçaram, ali ficou sepultado tudo o que haviam sonhado. Carregam no coração uma mistura de tristeza, frustração e desconcerto. E então fazem o que tantas vezes nós fazemos: fugir. Buscar outro lugar, outro espaço, outra “Emaús” onde a dor pese menos e onde, ao menos por um momento, possamos nos sentir mais fortes.

Enquanto caminham, discutem. O Evangelho diz que iam “discutindo” (συζητέω), quase brigando. Porque, quando o coração está ferido, quando há morte por dentro, a pessoa busca explicações, responsáveis, respostas. Mas nada basta.

E é ali, nesse caminho de fuga, que Jesus aparece. Ele não os espera em Jerusalém. Não os corrige de longe. Aproxima-se e caminha com eles. Mesmo quando estão indo embora, mesmo quando estão errados, mesmo quando não entendem nada… Ele caminha com eles.

E lhes faz uma pergunta: “Sobre o que vocês estão conversando?”. Não porque não saiba, mas porque quer que digam, que coloquem para fora. Assim começa também a nossa missa, com o “Senhor, tende piedade” (Κύριε ἐλέησον): colocar em palavras o que trazemos dentro, reconhecer nossas feridas, nossas frustrações, nossas falsas expectativas.

Porque é isso que os discípulos confessam: “Nós esperávamos…” (ἡμεῖς δὲ ἠλπίζομεν). Esperavam um Messias forte, poderoso, triunfante. E Jesus não foi isso. Ou melhor: não foi isso como eles imaginavam. E então se decepcionam.

Eles até ouviram o anúncio da ressurreição. As mulheres disseram que o sepulcro estava vazio, que Ele vive… mas isso não lhes basta. Têm dados, informação, notícias… mas não têm fé. Porque a fé não nasce de saber coisas, mas de encontrar-se com alguém.

Então Jesus faz algo decisivo: explica-lhes as Escrituras. “Começando por Moisés e por todos os profetas” (ἀρξάμενος ἀπὸ Μωϋσέως καὶ ἀπὸ πάντων τῶν προφητῶν), mostra-lhes que toda a história falava d’Ele. E, enquanto lhes fala, algo começa a mudar. Mais tarde dirão: “Não ardia o nosso coração?” (οὐχὶ ἡ καρδία ἡμῶν καιομένη ἦν).

Primeiro arde o coração… depois se abrem os olhos.

Quando chegam a Emaús, dizem-lhe: “Fique conosco”. E o Evangelho diz: “entrou para ficar com eles” (καὶ εἰσῆλθεν τοῦ μεῖναι σὺν αὐτοῖς). Esse é o nosso Deus: não passa adiante, não se impõe, mas entra quando o convidam… e entra para ficar.

E o reconhecem em um gesto muito simples: partir o pão. Ali se lhes abrem os olhos. Ali descobrem que era Ele.

E, naquele mesmo momento, desaparece.

Porque Jesus não se deixa possuir. Deixa-se encontrar, mas não reter. E, no entanto, sua presença é real, tão real que lhes muda a vida.

E então acontece o mais importante: voltam a Jerusalém. Voltam ao lugar do fracasso, mas já não são os mesmos. O lugar não mudou… eles é que mudaram. Agora voltam com esperança, voltam para a comunidade, voltam para a Igreja.

Isto é a Eucaristia.

Muitas vezes viemos como os de Emaús: cansados, desiludidos, fugindo de algo, com o coração pesado. E aqui o Senhor faz o mesmo de sempre: caminha conosco, deixa-nos falar, explica-nos a Palavra, acende o coração… e se entrega a nós no pão partido.

E talvez não O vejamos, mas, se algo começa a arder por dentro, se algo se move, se algo muda… então é Ele.

A pergunta é: vamos continuar fugindo para as nossas Emaús… ou vamos voltar a Jerusalém?

Peçamos hoje a graça de reconhecê-Lo, de deixar que o nosso coração arda e de ter a coragem de voltar. Porque, quando alguém se encontra de verdade com o Ressuscitado, já não pode viver do mesmo jeito.

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