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O amor de Deus que se vê e se participa: Primeira homilia de Quinta-feira Santa de Leão XIV

O Papa Leão XIV presidiu em São João de Latrão sua primeira Missa de Quinta-feira Santa, onde centrou sua homilia no "upódeigma" do lava-pés como revelação do amor de Deus. Lavou os pés de doze sacerdotes — onze ordenados por ele — e citou Bento XVI e Francisco.
Leão XIV Quinta-feira Santa 2026

ROMA. O Papa Leão XIV presidiu nesta Quinta-feira Santa sua primeira Missa in Coena Domini como Bispo de Roma na basílica de São João de Latrão, inaugurando solenemente o Tríduo Pascal com uma homilia de profundo conteúdo teológico e marcada continuidade com seus predecessores.

Durante a celebração, o Santo Padre realizou também o tradicional gesto do lava-pés a doze sacerdotes da diocese de Roma, onze deles ordenados por ele mesmo apenas alguns meses antes. Tratam-se dos primeiros presbíteros que ordenou, apenas 23 dias após sua eleição como Papa, num sinal eloquente de proximidade pastoral e paternidade sacerdotal.

No coração de sua pregação, Leão XIV propôs uma chave interpretativa central: o gesto do lava-pés como “upódeigma”, ou seja, “o que se mostra diante dos próprios olhos”. Não se trata — sublinhou — de um simples modelo moral, mas da revelação mesma do modo de ser de Deus.

O “upódeigma”: o amor de Deus que se vê e se participa

Comentando o relato do evangelho de São João, o Santo Padre explicou que o termo grego utilizado pelo evangelista remete a uma realidade visível, concreta, que interpela diretamente a vida do crente.

“O que o Senhor nos mostra, tomando a água, a bacia e o avental, é muito mais que um modelo moral. Entrega-nos sua própria forma de vida”.

Nesta linha, frei Luciano Audisio, Secretário Geral da Ordem, nos ajuda a compreender melhor a profundidade do termo. A palavra ὑπόδειγμα (upódeigma) em Jo 13,15 não se reduz a um simples “exemplo”, mas designa um modelo paradigmático que revela uma forma de ser. No contexto bíblico e helenístico, não apenas se imita exteriormente, mas orienta a existência segundo um desígnio mais profundo.

No lava-pés, este termo se inscreve na lógica da kénosis: Cristo não apenas ensina humildade, mas manifesta sacramentalmente sua identidade de Servo. O gesto não é mera pedagogia moral, mas uma revelação performativa do amor de Deus, que ama “até o extremo” (eis télos, Jo 13,1).

Assim, o gesto visível remete a uma realidade invisível que deve ser atualizada pelos discípulos: não se trata de repetir um rito, mas de entrar na mesma lógica de entrega de Cristo. O upódeigma é normativo, mas não legalista: configura a existência cristã como doação humilde e eficaz.

Em continuidade com Bento XVI e Francisco

Num gesto significativo de comunhão magisterial, Leão XIV citou explicitamente seus dois últimos predecessores.

Por um lado, recuperou uma reflexão de Bento XVI que denuncia a tentação de buscar “um Deus de êxito e não de paixão”, sublinhando que a verdadeira onipotência divina se manifesta no serviço humilde.

Por outro, evocou o Papa Francisco ao recordar que o mandato de lavar os pés uns aos outros não é um imperativo abstrato, mas uma resposta que brota do amor: uma caridade vivida com autenticidade, não por obrigação.

Esta dupla referência situa sua homilia dentro de uma linha de continuidade teológica e pastoral, onde a centralidade de Cristo servidor ilumina a vida da Igreja.

Três convites do Papa Leão XIV em sua primeira homilia de Quinta-feira Santa

A homilia do Santo Padre pode sintetizar-se em três grandes chamados dirigidos a toda a Igreja:

1. Deixar-nos servir por Cristo

Leão XIV sublinhou que a condição para amar como Jesus é, em primeiro lugar, deixar-nos amar por Ele. Citando o diálogo com Pedro — “Se eu não te lavar, você não poderá partilhar minha sorte” —, recordou que a vida cristã começa acolhendo o serviço de Deus.

Cristo não apenas age, mas transforma: ao lavar o homem, purifica seu interior e o torna capaz de amar de verdade.

2. Aprender uma nova lógica de grandeza

O Papa denunciou a lógica mundana do poder, que identifica a grandeza com o domínio e a vitória.

Diante disso, o gesto de Jesus revela uma verdade decisiva: a grandeza de Deus se manifesta no serviço humilde.

O Deus cristão não se impõe, mas se ajoelha; não destrói, mas dá a vida.

3. Viver o serviço como forma de vida

Finalmente, o Santo Padre convidou a fazer do serviço recíproco o estilo concreto da vida cristã:

“Vocês também devem lavar os pés uns dos outros”.

Não como um ato pontual, mas como uma forma de existência. O serviço — insistiu — só é autêntico quando nasce do amor recebido e acolhido.

Eucaristia e sacerdócio: o coração da Quinta-feira Santa

Na parte final de sua homilia, Leão XIV recordou que nesta celebração a Igreja comemora a instituição da Eucaristia e da Ordem sacerdotal, sublinhando seu vínculo inseparável.

Cristo, Sumo Sacerdote e Eucaristia viva, se entrega como sacramento de unidade e caridade, fundamento da vida eclesial.

Neste contexto, o gesto do lava-pés aos sacerdotes adquire um significado ainda mais profundo: expressa a identidade do ministério ordenado como serviço radical ao Povo de Deus.

Um chamado a ajoelhar-se diante do sofrimento do mundo

A homilia concluiu com um chamado claro: diante de uma humanidade ferida pela violência e pela injustiça, os cristãos são chamados a ajoelhar-se diante dos oprimidos, seguindo o exemplo de Cristo.

A Quinta-feira Santa revela-se assim como um dia de memória viva, de gratidão e de compromisso, no qual a Igreja contempla o amor extremo de Deus e pede a graça de fazê-lo vida.

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