Há filmes que chegam à sua vida no momento oportuno. Não porque sejam os melhores da história do cinema, nem porque tenham ganhado todos os prêmios possíveis, mas porque conseguem fazer-lhe uma pergunta que talvez precisasse ouvir. Isso me aconteceu esta semana. Procurando um filme para relaxar um pouco, acabei encontrando uma verdadeira joia da animação. Eu ri muito, gostei da história e, quando os créditos terminaram, me peguei pensando em Santo Agostinho, em Homero e no Evangelho de São João. Nada mal para uma comédia protagonizada por um rebanho de ovelhas.
O filme se chama: As Ovelhas Detetives (2026), protagonizado por Hugh Jackman. Minha intenção não é estragar a história, mas convidá-lo a descobri-la. No final do artigo, você encontrará o link para Cine com Sentido, a seção de cinema da JAR Internacional onde a cada quinze dias recomendamos um filme que vale a pena ver. Hoje, só quero compartilhar este com você porque a história me pareceu muito mais profunda do que aparenta.
Um pastor que conhece suas ovelhas
O filme parte de uma ideia deliciosa. Toda noite, um pastor reúne suas ovelhas e lhes lê um capítulo de um romance de detetives antes de dormir. Elas esperam esse momento com verdadeira alegria. O que nenhuma imagina é que, um dia, a ficção baterá à porta da fazenda e serão elas as encarregadas de resolver um misterioso crime.
Enquanto via o filme, percebi que o verdadeiro protagonista não era o mistério. Nem mesmo as ovelhas. Era o pastor.
Talvez seja deformação profissional, mas quando um pastor aparece em uma história, é impossível não pensar em Cristo. E este personagem tem algo profundamente evangélico. Não vive separado do rebanho. Não aparece apenas quando surge um problema. Compartilha a vida com suas ovelhas, as conhece, as cuida, as protege e, sobretudo, gosta de estar com elas.
Há um detalhe que me comoveu especialmente: o pastor não tem um rebanho; tem ovelhas. Parece uma bobagem, mas não é. Porque um rebanho pode ser uma massa anônima. As ovelhas, por outro lado, têm nome, caráter, história e personalidade. O pastor sabe quem é cada uma delas.
Enquanto via essas cenas, não pude evitar me lembrar do Sermão 138 de Santo Agostinho, no qual ele comenta a passagem do Bom Pastor. O bispo de Hipona insiste que Cristo é o único Pastor verdadeiro e que todo pastor participa desse único pastoreio unicamente quando serve por amor. Não se trata de exercer um poder, mas de entregar-se. Não se trata de buscar o próprio benefício, mas o bem das ovelhas. Santo Agostinho afirma que todos os bons pastores são um só porque participam do único Pastor, que é Cristo.
Quão diferente seria muitas vezes nossa maneira de viver a autoridade — na Igreja, na família ou no trabalho — se entendêssemos que cuidar nunca consiste em mandar, mas em amar.
E que consolo produz pensar que Deus não nos olha como um número dentro de uma estatística. Ele nos olha como esse pastor do filme olha para suas ovelhas: sabendo perfeitamente quem somos e nos chamando pelo nosso nome.
Ovelhas com lotofagia
No entanto, o filme guarda uma segunda surpresa. As ovelhas possuem um estranho dom: esquecem muito rapidamente aquilo que as faz sofrer. Uma desgraça dura apenas alguns minutos em sua memória. Depois, voltam a sorrir como se nada tivesse acontecido.
Reconheço que, durante os primeiros minutos, pensei que aquilo era um autêntico presente. Quem não gostaria de esquecer as feridas que carrega dentro? Quem não desejaria apagar determinadas páginas de sua história?
E então apareceu em minha cabeça uma lembrança dos meus anos de estudante. Os lotófagos. Homero conta na Odisseia que Ulisses chegou a uma ilha habitada por um povo que se alimentava do fruto do lótus.
Quem o provava perdia a memória. Esquecia sua pátria, esquecia sua família, esquecia o desejo de regressar a casa. Alguns companheiros de Ulisses ficaram presos naquela falsa felicidade e foi necessário arrastá-los quase à força até o barco para continuar a viagem.
As ovelhas deste filme não esquecem quem são. Tampouco esquecem sua missão. O que esquecem é a dor. Vivem instaladas em uma espécie de presente permanente onde o sofrimento mal deixa vestígios.
E, no entanto, pouco a pouco descobrem que o esquecimento também tem consequências. Porque quem esquece demais acaba sendo incapaz de compreender o que está acontecendo.
Recordar também pode salvar
Enquanto a história avançava, percebi que o filme não estava falando realmente do esquecimento. Estava falando da memória.
E isso me levou diretamente a Santo Agostinho. Poucas páginas me impressionaram tanto quanto as do Livro X das Confissões, quando ele descreve a memória como um imenso palácio interior.
Ali, diz Agostinho, não só conservamos imagens ou conhecimentos; também guardamos nossa história, nossos afetos e, sobretudo, as pegadas que Deus foi deixando em nossa vida. Recordar não consiste em viver ancorados no passado. Recordar significa descobrir que Deus nunca deixou de caminhar conosco.
Talvez por isso a Bíblia esteja cheia de convites para recordar. Israel recorda continuamente a saída do Egito para não esquecer quem é. Jesus, durante a Última Ceia, não diz simplesmente «comei» ou «bebei». Ele diz: «Fazei isto em memória de mim». A Eucaristia é, precisamente, o grande ato da memória cristã.
Enquanto escrevo estas linhas, também penso em Maria Madalena diante do sepulcro vazio. Chora desconsolada porque a dor a fez esquecer as palavras de Jesus. Só vê uma tumba aberta. Só vê ausência. Até que escuta uma palavra.
«Maria!»
É o seu nome. E, de repente, tudo muda. Não porque Cristo lhe explique a Ressurreição, mas porque a ajuda a recordar. Recordar quem Ele era. Recordar quem ela era. Recordar que o amor sempre havia sido mais forte que a morte.
Entre a Semana Santa e a Páscoa
Confesso que houve uma frase do filme que continuou ressoando em minha cabeça durante horas. Ela me fez pensar em uma etapa da minha própria vida em que eu também queria esquecer muito rapidamente.
Durante anos, quis viver sendo mais de Páscoa do que de Semana Santa. Gostava de falar da alegria, da esperança e da Ressurreição. Sem perceber, tentava passar de mansinho pela dor, pelas perguntas e pelas feridas. Com o tempo, compreendi que o Evangelho nunca separa uma coisa da outra. Não existe a manhã de Páscoa sem a noite da Sexta-feira Santa. Tampouco existe uma cruz que não termine iluminada pela Ressurreição.
A memória cristã não consiste em ficar vivendo no sofrimento. Consiste em recordar que Deus esteve presente mesmo onde pensávamos que tudo havia terminado.
Talvez por isso as ovelhas desta história só conseguem salvar o rebanho quando decidem recordar. Quando deixam de fugir do passado e se atrevem a olhá-lo de frente. Porque há lembranças que pesam, sim. Mas também há lembranças que sustentam a vida.
Um filme para rir… e para recomeçar
Há tempos ouvi dizer que um bom filme não é o que responde perguntas, mas o que te acompanha por vários dias depois de vê-lo. Este conseguiu isso comigo.
É uma comédia inteligente, terna e muito divertida. Mas, ao mesmo tempo, fala do medo, do luto, da amizade, da liderança, da comunidade e dessa tentação tão humana de querer apagar aquilo que nos fez sofrer. E o faz com uma delicadeza surpreendente.
Talvez por isso queria recomendá-la também aqui, em recoletos.org. Porque estou convencido de que não é um filme só para crianças. É um filme para adultos que ainda conservam a capacidade de se deixar interpelar por uma boa história.
Se depois de ler estas linhas a curiosidade lhe picou, convido-o a descobrir qual é em Cine com Sentido, a seção de cinema da JAR Internacional. Estou convencido de que você vai rir. Mas também suspeito que, quando os créditos finais aparecerem, você também acabará pensando que a memória não é um peso do passado, mas um dos maiores presentes que Deus nos deu. Porque só quem recorda que foi amado pode compreender, de verdade, que nunca caminhou sozinho.
