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O olho que aprende a olhar: a alegria de descobrir a graça de Deus nos outros

Frei Luciano Audisio comenta a parábola dos trabalhadores da vinha (Mateus 20,1-16) e explica como Jesus nos convida a abandonar a comparação para descobrir a gratuidade da graça de Deus e aprender a olhar com os seus mesmos olhos.
Close-up de mulher com o olhar focado, encarando a câmera. Linda mulher de meia-idade, de olhos escuros, posando ao ar livre. Mulher deslumbrante com maquiagem natural, olhando de lado. Retrato de um rosto feminino confiante e atraente.

Frei Luciano Audisio, OAR, reflete sobre a parábola dos trabalhadores da vinha, uma das passagens mais surpreendentes do Evangelho de São Mateus. Por meio da generosidade do proprietário, Jesus revela que o Reino de Deus não funciona segundo a lógica do mérito ou da comparação, mas a partir da gratuidade do amor. A verdadeira conversão consiste em aprender a olhar com os olhos de Deus e alegrar-se do bem que Ele realiza em cada pessoa.

A graça de Deus rompe nossos cálculos

A parábola dos trabalhadores da vinha nos coloca uma pergunta incômoda: o que acontece em nosso coração quando Deus é bom com outros de um modo que nós não esperávamos? O relato começa com um proprietário que sai à procura de trabalhadores. Sai de madrugada, à terceira, sexta, nona hora e, por fim, à undécima. Quando o dia quase termina, ainda encontra pessoas esperando na praça. Não as encontra trabalhando; encontra-as de pé, disponíveis, mas sem terem sido chamadas.

A resposta deles é simples: “Ninguém nos contratou”. Estão ali, esperando uma oportunidade que não depende inteiramente deles. Talvez outros tenham sido escolhidos antes porque eram mais fortes, mais jovens, mais conhecidos ou porque chegaram no momento adequado. Eles permanecem à margem, vendo o dia passar. E o proprietário, em vez de ignorá-los, volta a sair. Esta é uma imagem de Deus: um Deus que sai à procura, que não se cansa de olhar a praça e que continua vendo aqueles que outros não viram.

Por isso surpreende como termina a jornada. Os últimos recebem um denário completo, igual aos primeiros. Então aparece a murmuração. Os que suportaram “o peso do dia e o calor” sentem que foram tratados injustamente. Mas o proprietário lhes recorda algo decisivo: “Amigo, não te faço nenhuma injustiça. Não combinaste comigo um denário?”. Não lhes tirou nada. Receberam o que foi acordado. O problema não está no que eles receberam, mas em que não suportam a generosidade concedida ao outro. A graça não elimina a justiça, mas revela que o amor de Deus transborda nossos cálculos humanos.

Aqui aparece uma palavra que Jesus coloca no centro da parábola: “Ou vais ter inveja porque eu sou bom?” Literalmente, pergunta se o seu olho é mau porque ele é bom (ἢ ὁ ὀφθαλμός σου πονηρός ἐστιν ὅτι ἐγὼ ἀγαθός εἰμι;). O olho mau é um olhar que deixa de contemplar o dom recebido para compará-lo com o dom do vizinho. E quando a comparação entra no coração, inclusive aquilo que antes nos fazia felizes começa a parecer-nos insuficiente. O primeiro jornaleiro tem um denário na mão, mas os seus olhos estão postos no denário do outro. Recebeu o prometido, mas já não pode alegrar-se por isso.

Isto nos toca, porque também nós podemos viver a fé assim. Podemos medir nossa vida com a vida dos demais: quem recebeu mais, quem foi reconhecido, quem teve uma missão mais importante, quem parece ter mais sucesso, quem chegou depois e, no entanto, recebeu uma graça que acreditamos merecer primeiro. Até na Igreja podemos cair nesta tentação: transformar o serviço numa conta, a entrega num mérito e a vocação numa competição. Deixamos de agradecer o que Deus fez conosco e começamos a perguntar-nos por que o fez com os demais.

Aprender a olhar com os olhos de Deus

Jesus nos convida a uma conversão do olhar. Já no Sermão da Montanha havia dito: “A lâmpada do corpo é o olho”. Se o olho é bom, todo o corpo está cheio de luz; se é mau, tudo fica em trevas. A parábola da vinha transforma esse ensinamento numa história. O problema dos primeiros trabalhadores não é o seu trabalho, mas o seu olhar. Não perderam o denário; perderam a capacidade de contemplá-lo como dom.

Talvez nossa conversão seja aprender a olhar como olha o proprietário. Ele não olha horas trabalhadas, rendimento ou méritos acumulados. Olha pessoas. Olha quem chegou cedo e quem chegou tarde. Olha quem teve muitas oportunidades e quem passou o dia esperando que alguém o chamasse. Sua bondade não nasce de uma contabilidade mais generosa, mas de um olhar capaz de reconhecer a necessidade e a dignidade de cada pessoa.

Por isso a frase final adquire um sentido novo: “Os últimos serão primeiros e os primeiros, últimos”. Não se trata simplesmente de trocar os lugares de uma fila. O Reino de Deus vem dissolver a própria fila. Onde nós perguntamos quem merece mais, Deus pergunta quem precisa ser encontrado. Onde nós contamos horas, Deus contempla histórias. Onde nós comparamos méritos, Deus oferece graça.

A verdadeira riqueza do Reino é alegrar-se pelo bem do irmão

Peçamos, então, um olho bom, um olhar simples, capaz de agradecer o próprio denário sem entristecer-se pelo do irmão. Porque talvez a verdadeira pobreza não seja receber menos, mas deixar de reconhecer o dom que já temos. E talvez a verdadeira riqueza do Reino consista em olhar a alegria do outro não como uma ameaça, mas como mais uma razão para dar graças.

Quando aprendermos esse olhar, compreenderemos que, na vinha de Deus, ninguém perde porque outro tenha sido amado. Ao contrário: o dom recebido torna-se maior quando deixamos que também o outro possa alegrar-se por ter sido encontrado, chamado e amado.

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