O comentário ao Evangelho deste domingo, escrito por frei Luciano Audisio, OAR, introduz-nos no dinamismo profundo do tempo pascal como um caminho que conduz a Pentecostes. A partir do discurso de despedida de Jesus no Evangelho de São João, esta reflexão aprofunda a relação entre o amor, os mandamentos e o Espírito Santo, mostrando como a Páscoa se realiza plenamente quando deixamos que o Espírito transforme nossa vida desde dentro e nos devolva a memória do amor de Deus.
Amar é recordar: o Espírito nos resgata do esquecimento
Do esquecimento à memória do amor: o caminho pascal do Espírito
A liturgia deste domingo introduz-nos no coração do tempo pascal como num caminho que ainda não chegou à sua plenitude. A Páscoa não é apenas o acontecimento de Jesus ressuscitado, mas um processo que tende para Pentecostes: para o dom do Espírito e o nascimento de uma vida nova em nós. Não se trata unicamente do que Deus fez em Cristo, mas do que quer realizar em cada um.
O evangelho situa-nos na intimidade da última ceia. Não são palavras ditas num momento qualquer: brotam do coração de Jesus na hora em que sabe que vai morrer. E, no entanto, não fala de ausência, mas de presença. Não fala de distância, mas de uma proximidade ainda mais profunda “vós em mim e eu em vós” (ὑμεῖς ἐν ἐμοί κἀγὼ ἐν ὑμῖν): esta é a promessa. Permanecer nele e que ele permaneça em nós.
Para que isto seja possível, Jesus fala-nos de uma realidade que pode parecer-nos exigente, até desconcertante: a relação entre o amor (ἀγάπη), os mandamentos (ἐντολαί) e o Espírito (Πνεῦμα). Não são três coisas separadas, mas três dimensões de uma mesma vida.
Amar não é simplesmente sentir. O amor, na sua verdade mais profunda, é uma decisão. É escolher, e toda escolha implica uma renúncia. Por isso, cada vez que escolhemos amar, realizamos uma pequena páscoa: deixamos algo para trás para dar um passo em direção a uma vida mais plena. O amor é sempre um passo, um êxodo, um sair de nós mesmos.
Mas este amor precisa concretizar-se. Não existe sem os mandamentos. Não como uma imposição externa, mas como um caminho concreto, cotidiano, no qual o amor se torna visível. Porque não só agimos segundo o que somos, mas também chegamos a ser segundo como agimos. Há uma circularidade misteriosa entre o coração e a vida: o coração transforma o agir, mas o agir também educa o coração.
Por isso, na tradição de Israel, o mandamento é um memorial, zikkārôn (זכרון): um gesto concreto que recorda, no meio da vida diária, que Deus nos amou primeiro. Daí nascem as miṣwōt (מצוות), esses pequenos atos que davam forma à existência cotidiana. Não eram simples normas, mas uma pedagogia do coração: uma maneira de não esquecer.
O pecado como esquecimento e o Espírito como Consolador
E aqui tocamos num ponto decisivo. O pecado, na sua raiz mais profunda, é esquecimento. Esquecer que somos amados. Quando isto acontece, começamos a viver a partir do medo, da necessidade de nos defender, da lógica do “salve-se quem puder”. Essa é a lógica do mundo entendido como sistema fechado sobre si mesmo, onde cada um luta para sobreviver. É também a voz do acusador, de śāṭān (שָׂטָן), que nos encerra na suspeita e na desconfiança.
Diante disto, Jesus promete o dom do Espírito. O Consolador, que nos sussurra no profundo que não estamos sós, que não fomos abandonados. Mas também o Advogado, aquele que se coloca ao nosso lado e fala em nosso favor. O Espírito não acusa: defende. Não condena: recorda quem somos.
Por isso é chamado “o Espírito da verdade” (τὸ πνεῦμα τῆς ἀληθείας). A verdade, no evangelho de João, não é uma ideia: é uma pessoa. É Jesus. E esta verdade tem o sabor da memória: é o que nos arranca do esquecimento. O Espírito faz precisamente isto em nós: recorda-nos, uma e outra vez, que somos filhos amados.
E quando esta memória desperta, tudo muda. Já não vivemos para nos defender, mas para nos entregar. Já não agimos a partir do medo, mas da confiança. Então, nossos gestos cotidianos, os mais simples, os mais escondidos, convertem-se em memorial vivente do amor de Deus. Nossa própria vida torna-se um anúncio.
A Páscoa cumpre-se quando o Espírito transforma nossa vida
Este é o caminho da Páscoa: deixar que o Espírito realize em nós o que realizou em Jesus. Não se trata de imitá-lo desde fora, mas de ser transformados desde dentro. Até que sua vida seja nossa vida.
E este processo alcança seu ápice na Eucaristia. Cada vez que celebramos, não só recordamos Cristo: somos incorporados a ele. Recebemos seu Espírito, que nos une, nos transforma e nos torna membros de seu corpo.
A Páscoa, então, não está completa enquanto não se cumprir em nós. É um caminho aberto, uma promessa em ato. E o Espírito já foi dado. Habita em nós. Consola-nos, defende-nos, recorda-nos.
Só resta uma coisa: aprender a escutar sua voz… e deixar-nos conduzir.
