A Carta Apostólica do Papa Leão XIV, Desenhar novos mapas de esperança, publicada por ocasião do sexagésimo aniversário da Declaração sobre a educação cristã do Papa Paulo VI Gravissimum educationis (28 de outubro de 1965), convida a voltar ao coração da educação como tarefa humana, social e espiritual. O Papa afirma desde o início que “a educação não é uma atividade acessória, mas constitui o tecido mesmo da evangelização: é a forma concreta com a qual o Evangelho se converte em gesto educativo, relação, cultura” (1.1). Esta afirmação situa a educação como espaço onde a fé se torna experiência, convivência e horizonte compartilhado. Não se trata de defender estruturas escolares por si mesmas, mas de compreender que, ali onde se acompanha o crescimento humano, se está construindo uma cultura do encontro e da vida.
O documento destaca que a Igreja gerou historicamente “constelações educativas” (1.2): realidades diversas, criativas e adaptadas aos seus contextos, que souberam unir fé e razão, pensamento e vida, conhecimento e justiça. Entre essas fontes, a tradição agostiniana aparece como uma inspiração constante, não para se centrar apenas nela, mas para mostrar uma chave antropológica e pedagógica que conserva sua força. Santo Agostinho entendeu que o mestre autêntico não impõe a verdade, mas ajuda a buscá-la desde dentro. A Carta recorda esta dinâmica quando afirma que na escola católica “o coração dialoga com o coração, e o método é o da escuta que reconhece o outro como um bem” (3.1). Esta perspectiva se contrapõe à pressa, à padronização e à educação reduzida a resultados quantificáveis. Educar é, antes de tudo, um encontro.
O Papa Leão XIV insiste em que “educar é um ato de esperança e uma paixão que se renova porque manifesta a promessa que vemos no futuro da humanidade” (3.2). Este ato de esperança exige olhar para cada pessoa como única. Por isso adverte, com força, que “uma pessoa não é um «perfil de competências», não se reduz a um algoritmo previsível, mas que é um rosto, uma história, uma vocação” (4.1). Em tempos em que os sistemas educativos tendem a medir, comparar e classificar, estas palavras recordam que o centro da educação é sempre o desenvolvimento integral de quem aprende.
O documento sublinha também a responsabilidade dos educadores. Não basta ensinar conteúdos; é necessária vocação de acompanhamento. Afirma-se que a escola católica “não é simplesmente uma instituição, mas um ambiente vivo no qual a visão cristã impregna cada disciplina e cada interação” (5.2). Isto requer mestres com preparação científica e pedagógica, mas também com sensibilidade humana e espiritual. Educar implica saber escutar, animar, discernir e sustentar.
A Carta Apostólica dedica também uma atenção central à família no processo educativo. O Papa recorda que “a família continua sendo o primeiro lugar educativo” (5.3), não só pela transmissão de valores, mas porque é ali onde a pessoa aprende a ser olhada com dignidade, escutada, acolhida e acompanhada. A escola — assinala o Papa — não substitui a família, mas colabora com ela desde uma “aliança educativa que requer intencionalidade, escuta e corresponsabilidade” (5.3). Esta perspectiva convida a fortalecer os vínculos entre docentes e famílias, a gerar espaços de encontro real e não só administrativo, e a cultivar a confiança mútua como fundamento do crescimento pessoal e comunitário. Em um tempo em que muitas estruturas familiares se veem fragilizadas, esta chamada é especialmente relevante: sem família, a educação perde raiz; sem escola, a família perde horizonte; juntas, podem sustentar um caminho de humanidade compartilhada.
Um dos desafios atuais mais significativos é o entorno digital. A Carta adverte que as tecnologias, se não se orientam adequadamente, podem fragmentar a atenção e empobrecer as relações. No entanto, a resposta não é rejeitá-las, mas integrá-las com discernimento. Por isso se afirma que “nossa atitude em relação à tecnologia nunca pode ser hostil, porque “o progresso tecnológico forma parte do plano de Deus para a criação” (9.2). A questão decisiva não é a ferramenta, mas o modo em que se põe ao serviço da pessoa e do bem comum.
O Papa propõe também três prioridades educativas para nosso tempo. Entre elas está a necessidade de espaços interiores: “Os jovens pedem profundidade; necessitam de espaços de silêncio, discernimento, diálogo com a consciência e com Deus” (10.3). Esta afirmação interpela diretamente a todas as instituições educativas, que estão chamadas a gerar ambientes que não só transmitam saber, mas que permitam compreender a própria vida, orientá-la e dotá-la de sentido.
A Carta conclui com um convite programático e profundamente humano: “Desarmem as palavras, levantem o olhar, custodiem o coração” (11.2). São três gestos para outra forma de educar: uma palavra que não fere, mas que acompanha; um olhar capaz de ver mais além do imediato; um coração que não se endurece, mas que se abre à esperança. Desenhar novos mapas de esperança, como propõe o Papa, significa crer que cada pessoa pode crescer, compreender, amar e transformar. Significa educar não para a competição, mas para a comunhão; não para a sobrevivência, mas para a plenitude humana.
A educação, hoje mais do que nunca, se revela como uma tarefa essencial para sustentar a dignidade, a fraternidade e o futuro. Ali onde se educa com profundidade, escuta e confiança, nasce um mundo novo. Educar é crer nele antes de que exista e trabalhar para torná-lo possível.



