No Evangelho deste terceiro domingo da Quaresma, Jesus encontra a samaritana junto ao poço de Sicar. Frei Luciano Audisio, biblista e secretário-geral da Ordem dos Agostinianos Recoletos, convida-nos a contemplar este diálogo como um caminho espiritual que revela a sede mais profunda do coração humano e o desejo de Deus de se encontrar conosco justamente ali onde estão as nossas feridas.
O poço: lugar de descida e de vida
O Evangelho deste terceiro domingo da Quaresma nos conduz a um lugar profundamente simbólico: um poço. E não é um detalhe menor. Na gramática espiritual da humanidade, o poço é um espaço carregado de paradoxos: é profundidade, é descida, quase imagem de túmulo; mas, ao mesmo tempo, é fonte de vida, porque dele brota a água indispensável para sobreviver. Ali onde parece haver morte, a vida pode nascer.
Não é por acaso que o relato se encontra no capítulo 4 do Evangelho de João, o evangelho que mais profundamente desenvolve o mistério pascal como passagem da morte para a vida. Junto ao poço, a Páscoa já começa a despontar.
Jesus, para chegar da Galileia a Jerusalém, poderia ter tomado caminhos alternativos e evitado a Samaria. Mas não o faz. Decide atravessá-la. E isso é profundamente revelador: o Senhor não contorna as nossas feridas, não evita as nossas zonas escuras, não passa ao largo das nossas vergonhas. Ele as atravessa.
A Samaria representa essa “terra maldita” que todos carregamos dentro de nós: a parte da nossa história que preferiríamos esconder, as decisões erradas, os relacionamentos rompidos, as decepções que pesam. E é justamente ali que Jesus quer passar.
O evangelista o mostra cansado, sentado junto ao poço. O Filho de Deus fatigado. Aquele que é fonte de vida, com sede. Este detalhe é comovente: Deus não nos salva de longe, mas compartilhando a nossa fragilidade. Aquele que mais tarde dirá na cruz “tenho sede”, começa aqui pedindo: «Dá-me de beber» (δός μοι πεῖν).
A sede do coração humano
E então aparece a mulher. Ela vai ao poço ao meio-dia, a hora mais quente, provavelmente para não encontrar ninguém. Sua história é marcada por rupturas: cinco maridos, e o homem com quem vive não é seu esposo. Para além de qualquer juízo moral, o texto deixa entrever uma vida afetivamente ferida, uma busca constante de amor que não conseguiu saciar sua sede.
Ela vem por água. Mas, na verdade, vem por algo mais profundo: vem por vida. Porque a água, na Escritura, simboliza o desejo, o anseio, o eros que habita no coração humano. Todos nós, de algum modo, somos essa mulher. Vamos todos os dias aos nossos poços —trabalho, relacionamentos, projetos— tentando apagar uma sede que volta a aparecer.
O diálogo começa com desconfiança, quase como um confronto. Mas, pouco a pouco, algo muda. Ela percebe que este homem não é “mais um”. Ele não a usa, não a condena, não a humilha. Ele a olha. Ele a conhece. E, ainda assim, permanece.
O evangelista introduz um simbolismo profundo: se ela teve cinco maridos e agora vive com um sexto homem, Jesus aparece como o sétimo. Na tradição bíblica, o sete é número de plenitude. Ele é o homem definitivo, o esposo verdadeiro, aquele que não fere nem abandona, mas restaura.
O poço, que na Bíblia é lugar de núpcias, torna-se aqui cenário de uma nova aliança. O pano de fundo batismal do texto é evidente: a Quaresma, desde os primeiros séculos, foi o tempo de preparação dos catecúmenos para o batismo. E o batismo é, no fundo, um matrimônio espiritual, uma aliança transformadora entre Cristo e a nossa humanidade.
Ao longo do diálogo, a mulher faz um caminho de fé. Primeiro, vê em Jesus um judeu. Depois, o reconhece como alguém maior do que as tradições herdadas. Em seguida, o chama de profeta. Por fim, chega à confissão plena: «o Salvador do mundo» (ὁ σωτὴρ τοῦ κόσμου).
Assim é a fé: um reconhecimento progressivo. Ninguém passa da ignorância à plenitude num instante. É um caminho. E a Quaresma é exatamente isso: um itinerário de iluminação, um deixar que Cristo nos revele quem Ele é e, ao mesmo tempo, quem somos nós.
Da ferida à missão
Há um detalhe final que não podemos deixar passar: a mulher deixa o seu cântaro. O cântaro representa sua velha maneira de buscar água, seu antigo modo de viver. Quando encontra a fonte verdadeira, já não precisa carregá-lo.
E corre para o povoado. A mulher isolada torna-se missionária. A ferida transforma-se em anunciadora.
Ali onde parecia haver esterilidade afetiva e fracasso, brota uma fecundidade inesperada. Do lugar de morte surge a vida.
Este Evangelho nos convida a nos perguntarmos: Onde está a nossa Samaria? Onde está o nosso poço? De que temos sede? Cristo nos espera justamente ali. Não na perfeição, mas na ferida. Não na autossuficiência, mas na necessidade.
Se hoje permitirmos que Ele nos diga “dá-me de beber”, se aceitarmos dialogar com Ele sem máscaras, descobriremos que a nossa sede mais profunda não é um problema, mas o ponto de partida de uma nova relação. E então, como a samaritana, também nós poderemos deixar o cântaro e anunciar que encontramos aquele que dá a água que jorra para a vida eterna.



