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Quando a escuta se converte em misericórdia: o caminho evangélico da correção fraterna

Frei Luciano Audisio reflete sobre o Evangelho de Mateus 18,15-20 e explica o verdadeiro sentido da correção fraterna.

Frei Luciano Audisio, OAR, reflete sobre o Evangelho deste domingo, no qual Jesus propõe um caminho de reconciliação para enfrentar os conflitos dentro da comunidade cristã. Longe de uma lógica de condenação, o Senhor convida a buscar o irmão com paciência, proteger sua dignidade e fazer da escuta o primeiro passo rumo à misericórdia. A correção fraterna nasce do amor e encontra sua plenitude na presença de Cristo, que permanece ali onde dois ou três se reúnem em seu nome.

O que significa a correção fraterna segundo Jesus?

O Evangelho deste domingo nos introduz em uma das passagens mais delicadas e exigentes da vida cristã: como agir quando um irmão peca contra nós. Jesus não oferece uma receita disciplinar nem um mecanismo para impor autoridade. Propõe, antes, um caminho de busca, escuta e reconciliação. Por isso, para compreender Mt 18,15-20, convém recordar que estas palavras aparecem imediatamente depois da parábola da ovelha perdida. O irmão que pecou não é, antes de tudo, um culpado que deve ser castigado; é uma ovelha que corre o risco de perder-se e que a comunidade está chamada a buscar.

O primeiro passo é surpreendentemente simples: “Se o seu irmão pecar, vá e repreenda-o a sós”. A expressão grega κατ᾽ ἰδίαν, “a sós”, contém uma profunda delicadeza. Jesus não começa levando o conflito diante dos outros, mas protegendo a dignidade do irmão. A correção cristã jamais deveria transformar-se em humilhação, exposição ou desejo de demonstrar que temos razão. Antes de falar da falta do outro diante da comunidade, somos chamados a falar com ele.

Aqui aparece uma palavra decisiva do texto: “escutar”. O verbo escutar (ἀκούειν) repete-se insistentemente. A finalidade não é simplesmente dizer ao outro que está errado, mas abrir um espaço onde ele possa escutar e ser escutado. A tradição de Israel já havia compreendido a importância da correção fraterna quando ordenava: “repreenderás o teu próximo”. Mas Mateus leva este ensinamento a uma lógica nova: corrigir é ainda uma forma de buscar. Quem corrige o irmão não deveria fazê-lo a partir da superioridade, mas a partir da esperança de que ainda pode recuperá-lo.

Se o irmão não escuta, Jesus propõe um segundo passo: “leve consigo mais um ou dois”. O conflito deixa de ser estritamente privado, mas ainda não se torna um julgamento público. Os outros não são convocados para formar um tribunal contra o irmão, mas para ajudar a que a verdade possa ser reconhecida e a comunhão, restaurada. Também aqui aparece uma pedagogia da paciência: antes de chegar à comunidade inteira, oferece-se uma nova oportunidade.

Finalmente, se tampouco escuta, intervém a Igreja. A palavra ekklesía (ἐκκλησία) evoca a assembleia convocada por Deus. Isto significa que a vida comunitária não pode desentender-se das feridas que existem entre seus membros. Uma comunidade cristã autêntica não é aquela onde nunca há conflitos, mas aquela que sabe enfrentá-los sem convertê-los em divisões definitivas.

Pode surpreender-nos a expressão de Jesus: “seja para você como o gentio e o publicano”. Mas Mateus é precisamente o Evangelho que mostra Jesus aproximando-se de publicanos e pecadores e que termina enviando os seus discípulos a todas as nações. Por isso, esta frase não deveria ser interpretada simplesmente como uma condenação definitiva. Se alguém não pode ser reintegrado pelo caminho da correção fraterna, volta a tornar-se objeto de missão. A porta não se fecha: muda o modo de buscar.

Escutar o irmão é abrir um caminho de reconciliação

Então compreendemos melhor as palavras seguintes: “Tudo o que ligarem na terra ficará ligado no céu, e tudo o que desligarem na terra ficará desligado no céu”. A autoridade cristã de “ligar e desligar” não é poder para controlar, mas responsabilidade para discernir. A Igreja recebe autoridade quando busca a verdade sem abandonar a misericórdia, quando protege a comunhão sem ocultar o pecado e quando corrige sem deixar de amar.

E chegamos assim ao coração da passagem: “Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, ali estou eu no meio deles”. Estas palavras não são uma frase piedosa acrescentada ao final. São a culminação de todo o processo. Ali onde dois ou três se reúnem para buscar o irmão, para escutar, discernir e reconciliar, Cristo se faz presente. A comunidade descobre que, enquanto tentava resolver uma ferida, estava sendo visitada pelo Senhor.

Talvez esta seja a pergunta que o Evangelho nos deixa hoje: sabemos escutar? Em nossas comunidades, famílias e relações podemos ter muita facilidade para falar, julgar e apontar, mas talvez nos faltem ouvidos capazes de escutar sem humilhar. O Evangelho nos convida a multiplicar esses ouvidos. Primeiro um; depois dois ou três; finalmente toda a comunidade. Cada passo é uma oportunidade para que ninguém fique perdido.

A misericórdia sempre busca o irmão

A correção fraterna, então, nasce da misericórdia. Não consiste em vencer o outro, mas em crer que pode voltar. Não busca ter a última palavra, mas abrir um caminho. E quando esse caminho se percorre com humildade, inclusive em meio ao conflito, cumpre-se a promessa de Jesus: Ele permanece no meio daqueles que se reúnem em seu nome.

Essa é a lógica do Evangelho. Que nossas comunidades sejam lugares onde a verdade possa dizer-se sem violência, onde o pecado possa reconhecer-se sem humilhação e onde todo irmão possa descobrir que, antes que condenado, é buscado, escutado e amado por Deus.

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