Um olhar agostiniano sobre o caminho de Israel e a nossa própria conversão, enriquecido pelo chamado pontifício para ouvir os pobres e desarmar a linguagem.
A Quaresma é muito mais do que um período no calendário litúrgico; é uma “pedagogia da graça” que a Mãe Igreja nos oferece para reorientar a nossa existência. Para nós, como família Agostiniana Recoleta, este tempo ressoa com uma força particular: é o chamado para empreender a viagem mais longa e difícil, a viagem rumo ao próprio coração.
- As Raízes Bíblicas: Do deserto de Israel ao deserto de Jesus
A teologia da Quaresma mergulha as suas raízes na história da salvação, especificamente na experiência do povo de Israel. O número 40 não é um algarismo aleatório na Sagrada Escritura; representa um tempo de provação, purificação e preparação para um encontro divino.
O livro do Êxodo narra como Israel caminhou 40 anos pelo deserto (Ex 16, 35). Foi um tempo de despojamento, onde o povo teve de aprender que “nem só de pão vive o homem, mas de tudo o que sai da boca do Senhor” (Dt 8, 3). O deserto é o lugar onde não existem seguranças humanas; ali, Israel teve de escolher entre voltar à escravidão do Egito (onde havia cebolas, mas não liberdade) ou confiar na promessa de Deus.
Jesus recapitula esta história na sua própria carne. Antes de iniciar o seu ministério público, o Espírito o impele ao deserto por 40 dias (Mt 4, 1-11). Diferente de Israel, que muitas vezes caiu na idolatria e na murmuração, Jesus mantém-se fiel. Ele transforma o deserto da tentação no lugar da vitória da filiação divina.
- A Quaresma em chave Agostiniana e Pontifícia: O “Redire” e a Escuta
Santo Agostinho, nosso pai, oferece-nos uma chave de leitura essencial para viver este tempo: a interioridade. Na sua obra De vera religione, Agostinho lança a famosa exortação: “Noli foras ire, in teipsum redi” (Não saias, volta para ti mesmo). Para um Agostiniano Recoleto, a Quaresma é um tempo de recoleção. Vivemos dispersos, fragmentados pelo ruído, pelas preocupações e pelos apegos desordenados que Agostinho chamava de concupiscência.
A esta interioridade convoca-nos também a mensagem do Papa Leão XIV para esta Quaresma 2026. O Santo Padre sublinha que não podemos voltar ao coração se não cultivarmos uma escuta profunda de Deus e, consequentemente, do clamor dos pobres e vulneráveis. A Quaresma é o tempo propício para recolher os pedaços da nossa alma e unificá-los no amor a Deus, um amor que nos impele a não sermos indiferentes perante as necessidades dos nossos irmãos mais desfavorecidos.
- O jejum que desarma: Do corpo à palavra
Agostinho entendia a vida cristã como uma peregrinatio (peregrinação). Não somos residentes permanentes deste século, mas viajantes rumo à Pátria. O jejum, a oração e a esmola não são fins em si mesmos, mas ferramentas para aliviar a bagagem. Como diria no Sermão 210: “O jejum do corpo é uma ajuda, mas o jejum do coração é a virtude”. De nada serve que o corpo passe fome se a alma se enche de soberba.
Em perfeita harmonia com este “jejum do coração”, o Papa lança-nos da Santa Sede um desafio profético: desarmar a linguagem. O verdadeiro jejum nesta Quaresma consiste em nos abstermos das palavras que ferem, dos julgamentos destrutivos e da polarização que divide as nossas comunidades. Jejuar é cultivar a amabilidade e usar as nossas palavras para curar, consolar e edificar a paz.
- Rumo a uma conversão comunitária
Finalmente, a Constituição da nossa Ordem recorda-nos que não caminhamos sozinhos. A experiência do deserto é vivida em comunidade. Israel marchou como povo; nós caminhamos como Igreja e como Província. Neste tempo litúrgico, a caridade torna-se o termômetro da nossa penitência. Como diz Santo Agostinho: “A medida do amor é amar sem medida”.
Que esta Quaresma 2026 seja para toda a Província da Candelária um tempo de graça. Que passemos da dispersão à unidade, do ruído ao silêncio habitado, e da escravidão dos nossos “Egitos” pessoais à liberdade dos filhos de Deus.
Referências Bibliográficas:
- Bíblia de Jerusalém (1998). Desclée de Brouwer.
- Catecismo da Igreja Católica (Numerais 540, 1438).
- Santo Agostinho. Confissões (Livro X). BAC.
- Santo Agostinho. De vera religione (39, 72). BAC.
- Ordem dos Agostinianos Recoletos. Constituições (Roma, 2012).



