Natalia Cuesta analisa um dos espaços mais influentes da cultura popular, o halftime show do Super Bowl, onde Bad Bunny se tornou mais do que entretenimento. Foi um momento de representação que colocou no centro uma língua, raízes e uma forma de celebrar a vida compartilhada.
Bad Bunny é um símbolo da fusão cultural e da inovação na música.
Em um dos espaços mais influentes da cultura popular, o halftime show do Super Bowl, Bad Bunny se tornou mais do que entretenimento. Foi um momento de representação que colocou no centro uma língua, raízes e uma forma de celebrar a vida compartilhada.
Ontem à noite, milhões de pessoas assistiram ao halftime show do Super Bowl, transformando a apresentação de Bad Bunny em um acontecimento cultural de primeira linha. Não foi pouca a polêmica em torno desta escolha por parte da NFL, mas o que para muitos foi uma questão de poder ou de leitura política, para outros foi algo muito mais profundo: gratidão, memória e representação.
Milhares de pessoas sentaram-se em frente à televisão e, quando a música começou a tocar, viram-se refletidas: suas histórias, suas famílias, suas raízes e um idioma do qual, desta vez, não precisavam se envergonhar.
Um palco global para uma identidade compartilhada
Não se trata apenas de subir a um palco, mas de sair para o mundo mostrando com orgulho o coração de uma cultura. Uma celebração da vida e do amor que revela, sem filtros, o que pulsa no coração de muitos latinos. Um gesto de respeito para com aqueles que precederam o cantor, para com o país que o viu crescer e para com tantos que renunciaram ao seu conforto para oferecer às suas famílias uma vida melhor.
Entre canções e dança, Bad Bunny enviou uma mensagem àqueles que nem sempre se veem refletidos na televisão: àqueles que cresceram traduzindo entre dois idiomas, aos que estão há anos sem poder ver seus avós, aos que, mesmo tendo nascido nos Estados Unidos, continuam comendo as doze uvas no fim do ano e sabem que a festa começa quando toda a família chega.
Ao pensar neste halftime show, é impossível não pensar em todas as crianças, pais e avós que, onde quer que estivessem, se sentiram um pouco mais perto de casa.
Língua, cultura e esperança em tempos de polarização
A representação de uma cultura marcada pela alegria, celebração e família em um espaço como o Super Bowl é também um sinal do tempo em que vivemos. Em uma época de divisão, de discursos carregados de ódio e de uma polarização cada vez maior, a imagem de milhares de pessoas dançando juntas se torna um símbolo de unidade, de esperança e de vida. O amor ainda tem um lugar em nossa sociedade.
Em um mundo que promove o individualismo, torna-se visível uma cultura do sacrifício: famílias que vivem separadas, pessoas que deixam tudo em busca de um futuro melhor para quem amam. Mostra-se que é possível ter orgulho da própria origem e que o idioma é uma marca viva do amor daqueles que lutaram antes por nós.
Independentemente de sua música agradar ou não, Bad Bunny se tornou uma referência. Alguém que não se envergonha de suas raízes, que leva o espanhol a espaços públicos e que, simplesmente sendo quem é, incomoda aqueles que preferem uma cultura baseada na exclusão.
O idioma é central na identidade das pessoas: é o que narra nossa vida, conta nossa história e dá nome àqueles que levamos no coração. O espanhol não é apenas uma língua que se fala; é uma forma de amar, de cuidar e de nomear o mundo.
Os sotaques não são um defeito do qual se envergonhar, mas uma marca que fala de origem e de caminho percorrido. Que o espanhol soe em um palco como o do Super Bowl é, em si mesmo, um gesto de visibilidade e dignidade. Em tempos de discursos que dividem, a cultura e a língua podem se tornar um autêntico elo de união.
Além do espetáculo, esta apresentação é também um convite a viver com alegria e gratidão, a mostrar o coração de uma cultura que pulsa em milhões de pessoas que, em seus países e em qualquer canto do mundo, caminham para frente levando suas raízes com orgulho e sonhando em se reunir novamente.
No coração da cultura hispânica encontramos valores que podem ser um verdadeiro antídoto para nossa vida: a família, a alegria e a simplicidade.
O gosto por se reunir e compartilhar em torno de uma mesa, a capacidade de unir gerações, o respeito aos mais velhos e o aprendizado que nasce deles, e, sobretudo, uma alegria que persiste apesar das dificuldades. Uma cultura que, mesmo marcada pela dor, pelas injustiças e pela separação de muitas famílias, continua se expressando na dança, na celebração, na união e no amor pela vida.
Esse é também o nosso testemunho: que a alegria vivida com simplicidade e amor é uma das formas mais profundas de esperança e que, como Bad Bunny lembrou, “a única coisa mais poderosa que o ódio é o amor”.



