Neste artigo, Frei Hugo Badilla reflete sobre o discernimento como chave espiritual e comunitária para a vida consagrada hoje. A partir de uma leitura agostiniana e profundamente encarnada, o autor convida a repensar a comunidade como lar, espaço de cuidado, corresponsabilidade e missão, capaz de responder aos desafios da solidão, da fragilidade e da esperança em um mundo em constante mudança.
Frei Hugo Badilla é religioso agostiniano recoleto, costarriquenho, pertence à Província de São Nicolau de Tolentino e professa na Ordem desde 2014. É licenciado em Teologia da Vida Consagrada pela Universidade Pontifícia de Salamanca e atualmente reside na Cidade do México, onde colabora em distintos centros de espiritualidade agostiniana recoleta.
Rumo a uma Vida Consagrada de portas abertas e coração inquieto
Atualmente, no coração da Vida Consagrada, pulsa um paradoxo desafiador: vivemos em meio a um mundo hiperconectado, mas nossas comunidades e estruturas frequentemente abrigam “guetos de solidão”. Em meio ao que Zygmunt Bauman chama de sociedade líquida, onde as identidades oscilam e os compromissos tendem a se diluir, a vida religiosa é chamada a se tornar um farol de estabilidade pelo resplendor de seu amor. Para navegar em meio a estes tempos, faz-se necessário retornar à bússola da conversão, da fidelidade e do discernimento.
Esta tríade deve marcar o ritmo vital de quem decidiu seguir a Jesus. Santo Agostinho, o homem da interioridade, nos dá a chave ao afirmar que “discernir é separar e distinguir para amar”. Não discernimos para acertar na gestão institucional, discernimos para amar melhor, para purificar nosso olhar e construir a comunidade que o mundo reclama.
A Argila Habitada: Nossos Fundamentos Antropológicos
Ora, para construir comunidades vivas, devemos acentuar nossos esforços em redescobrir quem somos; o discernimento cristão não pode permanecer no vazio, mas sim se apoiar na realidade de nossa antropologia.
Somos seres naturais marcados pela vulnerabilidade e, longe de ocultar nossas feridas sob um manto de perfeccionismo, devemos aceitar o que somos. Santo Agostinho nos incita a reconhecer que somos barro, mas não qualquer barro, e sim um barro amado. Nossa fragilidade exige uma ética do cuidado, porque não podemos sustentar a fidelidade se violentarmos nossa natureza. Além disso, somos seres sociais; a autossuficiência é uma ilusão perigosa. Nossa verdade é a dependência e a alteridade. Como ilustra o Bispo de Hipona, a santidade é alcançada na “convivência de amigos em Deus”, onde a comunidade se torna um elemento necessário para dar bom fim aos nossos projetos. E, finalmente, somos seres espirituais dotados de uma liberdade que alcança seu ápice na obediência (ob-audire, a escuta atenta), alinhando nossa vontade com os sonhos de Deus.
O Discernimento: Dom, Tarefa e Crise
O discernimento é um dom que vem do alto ao ser humano. Uma graça incômoda que nos faz entrar em uma crise saudável e nos impulsiona à metanoia, à conversão do coração. O espírito não entra em nossa vida para nos deixar igual; vem para romper os odres velhos e criar odres novos.
Portanto, o discernimento é dom e tarefa. É dom porque se nos dá com o Cristo entregue e tarefa porque nos exige uma atitude vigilante para que nossa liberdade permaneça sempre disposta ao querer de Deus. A tradição nos oferece quatro chaves para reconhecer se nosso espírito é o de Jesus: a comunhão (que une), a humildade (que serve), a criatividade (que inova) e a alegria (que confirma).
Da Solidão ao Lar: A Urgência da Comunidade
O discernimento pessoal-comunitário honesto é o único caminho para sanar nossas estruturas. Hoje, a Igreja espera comunidades ricas de gozo e de Espírito Santo (VC 45), que atuem como um revulsivo eficaz frente à solidão. No entanto, é claro que a comunidade não surge por geração espontânea. Talvez seja o momento de reconhecer que demos o cuidado por suposto, confiando em textos e decretos enquanto o isolamento se fazia cada vez mais forte em nossas comunidades.
É o momento de romper as estruturas do “silêncio de morte”, esse calar, conceder e autodeslocar-se por medo, e caminhar rumo a uma sociedade de poliedro. O Papa Francisco utiliza esta imagem para descrever uma convivência onde as diferenças não se anulam, mas sim se integram, enriquecem e iluminam mutuamente. Imagem que nos faz reconhecer que a unidade evangélica não é uniformidade, mas sim a harmonia do diverso reconciliado pelo Espírito.
Uma Liderança para a Corresponsabilidade
Esta nova ideia de comunidade requer uma liderança que não se fabrica em série, mas que deve ser discernida. Necessitamos de líderes que não sejam consumidos pelo medo da realidade, que exerçam a corresponsabilidade e que entendam que liderar é um processo de abraçar nossa imperfeição e sanar as feridas. Uma liderança que não repare estruturas gastas, mas que tenha a audácia de fazê-las novas.
A burocracia não pode se converter em uma prisão do carisma que é energia de comunhão e de missão. Deve se converter em um processo aberto que nos permita sentir nosso Deus de maneiras novas. Nossos esforços não devem se centrar em buscar insistentemente mentes iguais, mas sim mentes capazes de pensar e sentir com o coração de Cristo.
Os Sinais Vitais da Esperança
Em conclusão, os frutos deste discernimento comunitário devem ser visíveis e estes quatro sinais vitais nos ajudarão a medir a saúde de nossa consagração:
- Nível de Oxigênio: Nossas comunidades respiram um ambiente saudável e sincero? Todos temos direito a viver a vocação em felicidade.
- Personalização do Carisma: Nossa comunidade tem rosto próprio ou é uma franquia impessoal? A maturidade implica que a comunidade tenha personalidade e saiba dizer o que quer e o que não quer.
- Felicidade Espiritual: Compartilhamos a fé ou apenas cumprimos tarefas? A comunidade deve ser um espaço onde se compartilha a vida profunda.
- Sentido de Missão: Estamos abertos ao envio ou fechados na autorreferencialidade?
O discernimento é separar para amar. Separar o que nos mata (a rotina, o medo, o egoísmo…) para amar o que nos dá vida (os irmãos, a missão, o Evangelho…). Que nossa pergunta final, em cada encontro e em cada oração, não seja “como sobrevivemos?”, mas sim: O que Deus quer que façamos nesta situação de nossa vida?
Só assim, nossas comunidades deixarão de ser residências para se converterem em verdadeiros lares, profecia do Reino em meio ao mundo.



