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Isaías e o Advento: a esperança que nasce no pequeno e prepara o Natal

Reflexão de Frei Luciano Audisio, OAR, sobre Isaías e o Advento como tempo de esperança, luz e preparação interior para o Natal.
Cross on the holy bible on a wooden table

Nas últimas semanas do Advento, o profeta Isaías se torna um guia espiritual para uma espera ativa e transformadora, Frei Luciano nos ajuda a nos aproximarmos do mistério. Através de suas imagens de luz, promessa e fragilidade, a Igreja aprende a reconhecer a presença de Deus que já irrompe no pequeno e prepara o coração para o Natal.

Isaías e a esperança que desperta: o Advento como nascimento da luz no pequeno

O Advento nasce no coração de uma espera que não é passiva nem nostálgica, mas ardente e criadora, como a que atravessa toda a obra do profeta Isaías. Ali onde Israel experimenta o exílio, a fratura interior, a perda de horizonte e a sensação de que Deus parece se calar, Isaías abre uma brecha luminosa em meio à escuridão. O Advento retoma essa mesma brecha: é o tempo em que a comunidade crente volta a aprender a esperar por Deus não como quem aguarda um acontecimento distante, mas como quem se dispõe a reconhecer uma irrupção que começa já agora, no pequeno, no oculto, no aparentemente frágil.

A esperança bíblica: uma palavra que antecipa o futuro de Deus

A esperança bíblica não é fruto do otimismo humano, mas resposta a uma Palavra que se atreve a pronunciar o que não existe ainda. Por isso, Isaías anuncia: «O povo que caminhava em trevas viu uma grande luz» (Is 9,1). Este verbo no passado é um futuro antecipado; Deus declara o que fará como se já tivesse ocorrido. Advento é entrar nessa lógica: deixar que a confiança na fidelidade divina seja mais determinante que o peso de nossas trevas.

O mundo de Isaías está cheio de violência, injustiça e desorientação política; o nosso não é tão diferente. No entanto, a Palavra não se deixa sequestrar pela dureza da realidade: a atravessa e a transforma desde dentro. A luz prometida não nasce do poder humano, mas da criança frágil que encarna o paradoxo entre pequenez e glória, vulnerabilidade e soberania.

O rebento do tronco de Jessé e a gramática discreta do Advento

Uma das imagens mais poderosas é o «rebento do tronco de Jessé» (Is 11,1). Este broto que surge de uma árvore aparentemente morta é símbolo da fidelidade obstinada de Deus. Quando tudo parece esgotado —instituições, forças pessoais, comunidades desgastadas—, Deus faz nascer vida de onde já não a esperávamos.

Essa é a gramática do Advento: não a exuberância do triunfo, mas a surpresa discreta do começo. A esperança verdadeira não nasce do evidente, mas da Palavra que promete um futuro ainda invisível. Quem vive o Advento segundo Isaías não se apega ao passado nem absolutiza o presente; se abre ao novo que Deus pode suscitar inclusive desde as ruínas.

O Messias do Espírito e a purificação de nossa esperança

O Espírito que repousa sobre este rebento —espírito de sabedoria, inteligência, conselho, fortaleza, conhecimento e temor do Senhor— revela a identidade do Messias como aquele que julga com verdade, defende o pobre e estabelece uma justiça que não é vingança, mas restauração.

No Advento, este retrato messiânico se torna exame de consciência: que tipo de Messias esperamos? Um que confirme nossas seguranças ou aquele que, desde sua mansidão poderosa, desbarata nossas falsas expectativas? Isaías convida a purificar a esperança, a esperar não um Messias à nossa medida, mas o que Deus promete.

A reconciliação como pedagogia do Advento

O oráculo do «lobo que habita com o cordeiro» (Is 11,6) não é ingenuidade nem romantismo, mas visão escatológica. Manifesta a capacidade do Messias para reconciliar o irreconciliável.

O Advento se converte assim em pedagogia da reconciliação. Nos educa a desejar um mundo diferente e, ao mesmo tempo, a nos interrogarmos sobre as resistências interiores que mantêm divisões e hostilidades. A paz messiânica começa no coração humano e se projeta para a comunidade.

Preparar o caminho no deserto interior

«Preparem no deserto um caminho para o Senhor» (Is 40,3). O deserto não é só geografia, mas estado espiritual: aridez, desolação, perda de sentido. Paradoxalmente, Deus escolhe esse lugar para começar de novo.

Advento não pede para fugir do deserto, mas entrar nele com verdade. Ali se endireitam os caminhos interiores e se reconhece a passagem de Deus. Isaías proclama consolo —נַחֲמוּ נַחֲמוּ עַמִּי— não como evasão, mas como certeza de que Deus toma a iniciativa para curar e restaurar.

Emanuel: a presença frágil que desarma nossas falsas seguranças

«A virgem conceberá e dará à luz um filho, e lhe porá por nome Emanuel» (Is 7,14). Este signo não busca impressionar, mas revelar que Deus está conosco não como soberano distante, mas como presença frágil que pede acolhida.

Advento é tempo para desalojar medos, seguranças falsas e idolatrias sutis. Emanuel é a resposta de Deus a todas as estratégias humanas de controle. A verdadeira segurança está na Presença que nasce.

Um banquete para todos e um Deus que enxuga as lágrimas

 

A visão do banquete para todos os povos (Is 25,6) expressa o horizonte universal da salvação. O Advento cristão recolhe esta amplitude: não é privilégio, mas convite para toda a humanidade.

Isaías anuncia também que «Deus enxugará as lágrimas de todos os rostos» (Is 25,8). Não é promessa sentimental, mas afirmação teológica: Deus não é indiferente ao sofrimento. Advento é aprender a olhar a dor com compaixão ativa, traço profundamente messiânico.

Viver o Advento: entre o “ainda não” e o já de Deus

Isaías é para o Advento profeta do futuro e mestre de presença. Ensina que a vinda do Senhor exige vigilância e abertura, mas que começa já. A salvação não irrompe na plenitude, mas no germe.

Viver o Advento é aprender a lógica divina: o pequeno, o marginal e o frágil se convertem em lugar privilegiado de encontro. Por isso, a cada ano, a Igreja volta a escutar o profeta: «Levanta-te, resplandece, porque chega a tua luz» (Is 60,1).

Esse resplendor é Cristo, o Emanuel, a Luz que nenhuma treva poderá vencer.

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