A nova adaptação de Lilo & Stitch (2025) não pretende ser — ao menos para nós — um objeto de análise técnica nem cinematográfica. O que aqui buscamos é uma leitura espiritual, um olhar inspirado em Santo Agostinho capaz de descobrir, inclusive em um filme aparentemente leve, os dinamismos mais profundos do coração humano: a ferida, o desejo do bem, o poder transformador do amor.
Stitch: de uma criação destinada ao caos a um coração que aprende a amar
Stitch nasce como um experimento criado para o mal: indestrutível, programado para a destruição, projetado sem vulnerabilidades nem possibilidade de compaixão. Seu criador deseja o impensável: um ser que não possa amar.
Mas ocorre algo que Santo Agostinho formularia com outras palavras: o amor sempre encontra uma brecha por onde entrar.
A transformação de Stitch não acontece por reconfiguração técnica, nem por ameaças, nem por força. Acontece por algo mais forte que tudo isso: uma experiência de amor real, concreto e cotidiano.
Stitch não estava “feito” para amar, mas descobre que pode fazê-lo porque alguém o amou primeiro. Nesse sentido, o personagem se converte em uma pequena parábola da graça: o que parecia impossível, torna-se possível quando o coração é tocado pelo bem.
Nós não nos parecemos com Stitch — não fomos criados para o mal, mas para o amor —, mas compartilhamos com ele a experiência da ferida. Às vezes, carregamos dentro um peso que nos endurece, feridas que nos fazem desconfiar, âmbitos de sombra onde acreditamos que o bem não poderá entrar. E, no entanto, aí é onde a graça costuma trabalhar com maior ternura: onde havia ruptura, aparece cuidado; onde havia medo, nasce a proximidade; onde havia solidão, abre-se um caminho para o outro.
Lilo: a ferida que busca ser amada
Lilo é um dos personagens mais profundos da Disney. Tem a ferida da perda, do abandono, da sensação de não ser suficientemente amada. Seu maior desejo é simples e, ao mesmo tempo, imenso: “Quero um anjo que cuide de mim.” Pede com a sinceridade de quem ainda conserva a esperança, ainda que seu coração esteja machucado.
E o que chega não é um anjo, mas o estranho experimento 626. O encontro parece absurdo… mas resulta providencial. Lilo acolhe Stitch quando ninguém mais o faria. Ensina-lhe o bem, mostra-lhe ternura e também compartilha sua ferida. Agostinho diria que aqui acontece algo profundamente humano: a ferida compartilhada pode converter-se em um lugar onde nasce o amor verdadeiro.
Nenhum dos dois está “completo”, nenhum é perfeito. E, no entanto, nesse espaço imperfeito encontram algo parecido com a salvação: um lar onde aprender a amar e deixar-se amar.
“Você não é mau… só que às vezes faz coisas más”
Uma das frases mais potentes do filme aparece quando Lilo, com a lucidez que só os simples possuem, diz a Stitch:
“Você não é mau… só que às vezes faz coisas más.”
São Paulo expressa uma intuição parecida em Romanos 7,19: “Não faço o bem que quero, mas o mal que não quero.”
Santo Agostinho comentará essa passagem como quem reconhece uma verdade fundamental do ser humano: a pessoa não é má por natureza; é um ser criado para o bem que, em sua ferida, pode equivocar-se.
Essa distinção é crucial. Não somos o mal que fazemos: somos a bondade à qual estamos chamados. E quando alguém nos olha a partir dessa verdade — como Lilo olha para Stitch — começa um caminho novo.
A família: escola imperfeita do amor
Outra aprendizagem preciosa do filme aparece quando Lilo afirma:
“As famílias não são perfeitas… se equivocam.”
Para Santo Agostinho, não existe comunidade sem tensões nem fragilidades. Mas precisamente aí reside sua beleza:
a família — biológica, adotiva, comunitária — é o lugar onde aprendemos o essencial, não porque seja perfeita, mas porque nela descobrimos que o amor real sabe conviver com erros, limites e feridas.
A ohana de Lilo não é ideal; é real. E em sua imperfeição, é fecunda. Ali Stitch encontra aquilo para o que nunca havia sido “programado”: um lar.
Um filme imperfeito, mas com luz
Provavelmente, esta adaptação de ação real não supere a emotividade simples e profunda da versão animada original. Pode ser que a anterior fosse mais limpa, menos sobrecarregada, mais direta. Mas, mesmo assim, podemos deixar que o cinema se converta em um pequeno sacramento da vida, um espelho onde descobrir caminhos para o Bem.
Santo Agostinho concordaria: em tudo o que é verdadeiro, bom e belo — ainda que seja imperfeito — ressoa a voz de Deus que chama nosso coração. E talvez esse seja o maior presente de Lilo & Stitch: recordar-nos que ninguém está destinado ao mal, que toda ferida pode converter-se em oportunidade e que o amor, quando se torna concreto, transforma inclusive o que parecia irrecuperável.
Cinefórum
- Dinâmica: Ohana que transforma
- Perguntas para refletir
Objetivo:
Ajudar os participantes a identificar em si mesmos — e no filme — a dinâmica agostiniana do coração ferido que busca o Bem e se transforma pelo amor recebido.
Duração:
35–50 minutos
Materiais:
-
Folhas com frases do filme e frases de Santo Agostinho (deixo-as abaixo).
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Canetas hidrográficas ou esferográficas.
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1 vela ou luz LED por grupo (opcional, para o encerramento).
Tamanho dos grupos:
4–6 pessoas
1. Início: “Uma ferida, uma luz” (5 min)
Cada pessoa compartilha em 10–15 segundos:
Se você fosse um personagem do filme, qual seria hoje: Stitch, Lilo, Nani ou Jumba? E por quê?
(Não é necessário aprofundar; basta uma intuição inicial.)
2. Primeira dinâmica: “Stitch por dentro” (10–12 min)
Cada grupo recebe estas três frases em cartões:
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“Você não é mau… só que às vezes faz coisas más.” – Lilo
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“Fizeste-nos para ti e o nosso coração está inquieto enquanto não repousa em ti.” – Santo Agostinho
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“Uma família é pequena, e às vezes se rompe. Mas continua sendo sua família.” – Lilo
Tarefa do grupo:
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Escolher uma frase.
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O que Stitch descobre sobre si mesmo à luz desta frase?
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O que descobrimos nós sobre nossa busca do Bem?
Responder juntos a estas duas perguntas:
-
Objetivo oculto:
Que o grupo conecte filme ↔ experiência humana ↔ intuição agostiniana.
3. Segunda dinâmica: “Ohana que cuida” (10–12 min)
A cada grupo é entregue uma folha com esta orientação:
“Pensem em uma experiência real onde alguém — família, amigo, comunidade — atuou como Lilo: cuidou, acompanhou, acreditou em vocês, inclusive quando estavam feridos.”
O grupo deve:
-
Compartilhar brevemente (só quem quiser).
-
Construir juntos uma frase que responda à pergunta:
O que faz com que uma comunidade cure e não destrua?
A frase deve ser curta (máx. 10 palavras). Exemplos de outros grupos:
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“Uma comunidade cura quando escuta sem julgar.”
-
“Curamos quando somos importantes para alguém.”
-
“O amor educa quando é paciente.”
Objetivo oculto:
Nomear aquilo que torna real a graça no cotidiano.
4. Colocação em comum: “A família que escolho e me escolhe” (5–8 min)
Cada grupo lê sua frase e explica em 20–30 segundos o sentido que lhe deram.
Pode ir anotando em um painel as frases para visualizar um “mapa de comunidade sanadora”.
5. Encerramento: “Uma vela para a ferida” (5 min)
(Adaptável segundo o contexto pastoral.)
O coordenador pede silêncio durante alguns segundos e propõe esta reflexão:
“Como Stitch, todos carregamos dentro feridas que nos inquietam e, como Lilo, precisamos sentir-nos cuidados. Não somos perfeitos, mas buscamos o Bem. Que nossa comunidade seja ohana: um lugar onde o amor transforma o que parecia impossível.”
Se usar velas LED, cada grupo pode acender uma e dizer em voz alta sua frase final.
Se não, basta uma oração ou reflexão breve.
Frases imprimíveis para a dinâmica
(Pode copiá-las em cartões ou diapositivos)
Frases do filme
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“Você não é mau… só que às vezes faz coisas más.”
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“Uma família é pequena, e às vezes se rompe.”
-
“Um anjo que cuide de mim… isso é o que quero.”
Frases de Santo Agostinho
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“Fizeste-nos para ti e o nosso coração está inquieto enquanto não repousa em ti.”
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“Ame e faça o que quiser.”
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“Quem sou eu para mim sem ti, Senhor?”
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“A ferida que se mostra, cura-se.”
Perguntas para cinefórum agostiniano sobre Lilo & Stitch (2025)
1. Sobre a busca do Bem
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Em que momentos do filme você percebe que Stitch começa a buscar algo diferente do caos e da destruição?
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Santo Agostinho diz que “todos buscam o bem, inclusive quando se equivocam”. Como isso se vê em Stitch?
2. Sobre a ferida e a transformação
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Stitch foi criado “para o mal”, mas se transforma pelo amor. Que experiências nossas poderiam comparar-se com essa transformação?
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Que feridas você reconhece em Lilo? Que feridas você reconhece em Stitch? Como se iluminam mutuamente?
3. Sobre o amor e a graça
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Que pessoas em sua vida fizeram com você o que Lilo faz com Stitch: amar você inclusive quando era difícil de amar?
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O que lhe diz a frase “Você não é mau, só que às vezes faz coisas más” a partir de uma perspectiva cristã?
4. Sobre a família
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Lilo diz: “As famílias não são perfeitas… se equivocam.”
— Temos expectativas demasiado idealizadas sobre a família?
— O que significa aprender a amar dentro de uma família imperfeita?
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Como você entende a ohana a partir do olhar da comunidade cristã?
5. Sobre a educação no amor
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Stitch, teoricamente incapaz de amar, aprende a amar porque é amado.
— O que isso lhe sugere sobre a educação afetiva, espiritual e moral na vida real?
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Em sua experiência, aprende-se a amar mais por instruções ou por exemplo?
6. Sobre a identidade e o mal
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Que diferença há entre ser “mau” e fazer coisas más?
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Você viveu momentos nos quais alguém o ajudou a ver sua verdadeira identidade além de seus erros?
7. Sobre Deus na história
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Você acredita que a chegada de Stitch à vida de Lilo é uma coincidência ou uma metáfora de como Deus atua através do inesperado?
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Lilo pede um “anjo que cuide dela”. Como você vê a presença de Deus nas respostas que não chegam como as imaginamos?
8. Sobre a conversão
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Que elementos do processo de Stitch poderiam ser vistos como uma “conversão”?
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Que aprendizagem lhe deixa sua passagem de criatura destrutiva a criatura que cuida?
9. Para aprofundar (nível avançado)
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Que relação você encontra entre a transformação de Stitch e a doutrina agostiniana da graça que sana a ferida do pecado?
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Se tivesse que explicar a um amigo o que significa “buscar o bem” usando este filme, como o faria?



